Ibn 'Arabi

 

IBN ‘ARABI

Por Sandra Regina Benato

 
 
        Ibn 'Arabi, conhecido como al-Sheikh al-Akbar, o Mestre Maior, nasceu em Múrcia, Espanha andaluz, em 1165, numa família de nobres árabes, provavelmente de origem yemenita.  Começou seus primeiros estudos ainda criança em Sevilha, sob orientação de seu pai, em língua e gramática árabe, direito Islâmico, memorização e exegese do Alcorão e ditos do Profeta Muhammad. No início de sua adolescência surgiram suas primeiras experiências místicas, o que levou Ibn Rushid (Averróis), grande filósofo e jurista, a querer conhecê-lo. Neste encontro Ibn 'Arabi percebe a grande lacuna entre o pensamento racional e a via da revelação gnóstica, e inicia uma peregrinação tanto interior quanto exterior em busca de mestres, especialmente sufis, cujos nomes e ensinamentos deixou registrados em seu livro Ruh al-Quds (literalmente, o Espírito Santo), traduzido por R.J.W. Austin, como ‘Sufis of Andalusia’. Estas viagens tornaram-se o próprio ritmo de sua vida, seguindo de cidade em cidade por todo norte da África até Meca, Medina, Konya (Turquia) e Damasco, na Síria, onde falece em 1240 e onde seu túmulo é visitado até hoje.

     Frequentemente assinava suas obras como Abu Abdu Allah Muhammad ibn 'Arabi al-Ta'i al-Hatimi, e "Abdullah", o servo de Deus, é também uma das formas de entender sua extraordinária habilidade intelectual, visionária e mística: somente o Futuhat al-Makiyya, As Revelações de Meca, seu livro mais extenso, tem em torno de quinze mil páginas e 560 capítulos, tratando de cosmologia, metafísica, antropologia espiritual, psicologia, jurisprudência, estudos sobre profetas e sobre a língua árabe etc. É também uma fonte impressionante de relatos de experiências interiores e de vivências  pessoais,  pequenas crônicas de circunstâncias da vida de vários personagens, anedotas e poemas. A este seguem-se centenas de outras obras. Não se sabe ao certo, mas cento e dez manuscritos autênticos sobreviveram. Dentre os mais conhecidos, além do Futuhat, o Fusus al-Hikam, Gemas da Sabedoria, e o Tarjuman al-Aswaq, O interprete dos desejos.

     Avesso aos teólogos, suas críticas e comentários lhe valeram a acusação de herege. Desconfiado da falsafa, a filosofia com base na tradição grega, tão pouco endossa completamente as tradições místicas, aproximando-se, em parte, aos malamatis, grupo cujo comportamento e atitudes opõem-se aos  devotos e ascetas. Após sua morte, sua influência no mundo islâmico ampliou-se de modo ainda mais intenso e polêmico, tornando-se referência para filósofos do porte de Mulla Sadr, compêndio espiritual para diversos grupos sufis e inspiração para muitos movimentos sociais e culturais nos últimos oitocentos anos.

     É extremamente difícil articular seu pensamento de forma retilínea. Um conceito está intrinsecamente ligado a outro, sem início ou fim, numa complexitude simultaneamente multi-dimensional. A um nível esquemático básico podemos visualizar a correspondência entre  três planos: o da vida manifesta no mundo, a vida interior do ser humano e o Alcorão. Esta inter-relação de dependência ficou conhecida como wahdat al-wujud, a unidade do ser. Ibn 'Arabi defendia a experiência de que só existe um único ser, que é o ser de Deus, cuja identidade, no sentido de experiência de si, permeia tudo o que existe. Para ele, o mundo e tudo o que vemos não existem em si, mas são manifestações dos diversos Nomes da identidade do Um, que chama de o Real, o Vivente. E este é o único modo de se conhecer tanto a si mesmo quanto ao mundo e a Deus. "Quem conhece (no sentido de "experiência") a si mesmo conhece ( experiencia) seu Senhor" , diz um hadith ( dito profético) atribuido ao Profeta Muhammad. Ou seja, a identidade mais profunda de todos os seres é a forma pela qual estes seres reconhecem a Deus, a forma do Senhor pessoal, única e limitada a si mesmo. O divino em sua totalidade transcende a toda possibilidade de conhecimento, pois de  forma alguma pode conter sua totalidade. Esta perspectiva é distinta do panteísmo, já que nem as criaturas são Deus, nem tão pouco a soma de tudo é Deus, como acontece na visão monista. A relação fica entre a forma e a identidade. A forma é a manifestação decorrente da identidade, não a identidade ela mesma: a forma é um "locus de manifestação" da expressão da identidade do Ser único. No entanto, a forma não está dissociada da identidade nem é externa à ela.

     Como a auto-exposição divina nunca se repete, cada indivíduo é  existencializado de modo especifico e diferenciado, único, conforme o nome ou a combinação de nomes divinos atuantes em sua disposição, em seus múltiplos estados de ser, desde o corpo físico até sua entidade espiritual mais profunda. A atuação dos nomes se dá de modo luminoso e numinoso tendo o coração, núcleo essencial,  como centro em torno do qual revolvem dando origem aos processos da vida tanto individual quanto coletiva.

     A existência de cada wujud está fundamentada na existência da realidade presente em seu coração, centro da própria identidade que em si é uma decorrência da existência divina. Deste modo, só o coração é capaz de conhecimento enquanto experiência, vivência direta de um "saborear" a presença da identidade, a presença do Real. A vida e a experiência de si mesmo enquanto ser humano, dependem do acolhimento do influxo constante da presença divina em "desvelamento" continuamente renovado. O auto-conhecimento seria então o reconhecimento da própria condição de "abdullah", de servo de Deus, aquele que, em si mesmo, é vazio de si.

     Por um outro lado, neste intrincado processo de metafísica do si mesmo, o universo e o Alcorão repetem o mesmo padrão aplicado ao ser humano: a cada plano ou nível de manifestação da identidade corresponde um plano da existência cósmica, num processo único de auto-exposição do sagrado. O Alcorão é visto como a revelação dos movimentos da existência, e sua interpretação é a interpretação simultânea do cosmos e do si mesmo. Para Ibn 'Arabi cada ser e cada momento está inscrito nestas três dimensões simultaneamente: no cosmos, no livro sagrado e na sua alma ou em si mesmo e seus "sinais", ou "versos" (ayát) dão  testemunho uns aos outros da presença que os permeia.

     Assim Ibn 'Arabi fundamenta seu pensamento numa hermenêutica do Alcorão que busca as raízes das palavras correspondentes a cada "respiração" do Todo Misericordioso. Este método origina uma abordagem das letras e da linguagem árabes sob múltiplos  níveis de relação e constitui por si só um imenso estudo. O ponto em comum é a resposta das criaturas ao chamamento do ser (kún! Sê!) que deste modo as existencializa, donde a importância da palavra, tanto escrita quanto falada. Como palavra divina o Alcorão é um universo, do mesmo modo que a alma do ser humano também é um Alcorão e estes valores se aplicam entre si em mútua assimilação.

     Como diz Willian Chittick, professor da Stony Brooke University ( Nova Iorque),"Ibn 'Arabi sempre foi considerado um autor dos mais difíceis. Isto devido a vários fatores, tanto pela extraordinária erudição quanto pelo discurso altamente consistente, contínua mudança de perspectivas e pela diversidade de estilos"(2005). E, apesar de partir fundamentalmente de uma perspectiva vivencial, fenomenológica, da hermenêutica mística e de ser considerado por muitos como um santo, a maior parte de seus escritos são argumentados com uma precisão racional tal que o coloca entre os principais intelectuais muçulmanos.

 

Sugestão de leitura:

 

ABUZAID, Nasr  Hāmid. Hakaza takalam Ibn ‘Arabi ( Assim falou Ibn ‘Arabi). Cairo : Al-Hai’a al-Masriya, 2002.

ADDAS, Claude. Ibn 'Arabi ou la quête du soufre rouge. Paris: Editions Gallimard, 1989.

'ARABI, Ibn. Fusus al-hikam. Trad. e notas de Caner Dagli. Chicago: Kazi Publications, 2004.

___. Al-futuhat al-makkiya. Les Illuminations de la Mecque. Edição de Michel Chodkiewicz. Paris: Albin Michel,1997.

___. Al-futuhat al-makkiya. The Meccan revelations. Edição de Michel Chodkiewicz e outros. New York: Pir Press, 2004.

___. Al Futuḥāt al-Makkiya. Beirut :  Dār Iḥiya’  al-Turaṯ al-‘Arabi, 4v., 1997.

CHITTICK, Willian. The Self disclosure of God. Albany: State University of New York Press, 1998.

___. Sufi Path of knowledge. Albany: State University of New York Press, 1989.

CHODKIEWICZ, Michel. An ocean without shore. Albany: State University of New York Press, 1993.

CORBIN, Henry. Alone with the alone - creative imagination in the sufism of Ibn 'Arabi. New Jersey: Princeton University, 1998.

HAJ YOUSEF, Muhammad. Ibn 'Arabi, time and cosmology. New York: Routledge, 2007.

Site da Ibn 'Arabi Society:  www.ibnarabisociety.org

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