Al-Farabi

 AL-FĀRĀBĪ: VIDA E REFLEXÃO FILOSÓFICA

 Por:  Francisca Galiléia Pereira da Silva*

 

     Antes de iniciar a breve exposição acerca dos elementos biográficos de um dos mais importantes representantes de Falsafa, é preciso, primeiramente, levar em consideração o contexto religioso-político por ele vivenciado. Afinal, tanto o processo de emancipação do Islamismo e a necessidade de fundamentação das doutrinas próprias do Islã, quanto o famoso círculo de traduções da filosofia grega para o árabe se constituem como eventos fundamentais no desenvolvimento do pensamento filosófico farabiano. O filósofo, a quem foi dado o título de Segundo Mestre[1], não esteve alheio ao seu tempo e, com uma reflexão filosófica voltada para a prática, teve como objetivo pensar sua realidade histórica valendo-se dos estudos que realizara. 

Pouco se sabe sobre a vida de Abū Nasr al-Fārābī. Nascido em data ainda desconhecida, mas se supõe que tenha sido entre os anos de 870-875/ 248-253H, em Farab, na Transoxiana, diz-se que seu pai fora um nobre oficial persa e que cedo seguira para Bagdá, onde se dedicou aos estudos da Filosofia Antiga e da Lógica. Tendo vivido no período da Bagdá Abássida, presenciou, portanto, o ápice do desenvolvimento das escolas filosóficas e teológicas, bem como a maior tolerância no que concerne ao pluralismo religioso e filosófico. Entretanto, foi pouco conhecido até a segunda metade do século XIX.

    Tendo, possivelmente, o turco como sua língua materna o turco, al-Fārābī aprendeu, ainda jovem, o árabe e, segundo algumas lendas, outras 70 línguas[2]. Estudou medicina – mas nunca a exerceu –, ciências matemáticas e a gramática árabe, em Bagdá com Abū Bakr al-Sarrāy (m.929/307H), ao mesmo tempo em que este aprendia lógica com ele. Estudou música – tendo fabricado um instrumento que afirmavam embriagar o espírito – e foi um dos primeiros teóricos medievais a se dedicar ao estudo da Mística.    

    No período de mudança do califado de al-Muktafi (902-908/280-286H) para al-Muqtadir (908-932/286-1310H), o filósofo deixa Bagdá e vai para Constantinopla, onde se encontrava um núcleo representativo de estudos sobre a filosofia platônica e aristotélica promovido pelo patriarca Focio (820-891/204-277H). Neste momento, após passar vários anos se dedicando aos estudos da lógica junto a Yuhanna b. Haylan, envolve-se com estudos da filosofia grega, obtendo textos platônicos[3] e uma vasta literatura da tradição. Retornando à Bagdá, depois de 920/298H, com considerável bagagem de conhecimento, al-Fārābī conquista numerosos discípulos, entre eles o cristão jacobita Yahya b. ‘Adi (893/94-974 / 271/72-352H).

    Com uma breve permanência em Bagdá, devido os frequentes conflitos políticos internos, o Segundo Mestre se muda para a Síria, então governada por Sayf-Dawla (916-967/303-355H), “[...] conhecido na história por sua filiação xiita, em cujos salões se respirava um ambiente cultural, elegante e refinado, onde se reuniam homens de ciência, poetas e filólogos renomados” [4]. Foi neste momento que escreveu uma de suas principais obras políticas, A cidade excelente (Kitāb al-madina al-fādila), e concluiu a Política (Kitāb al-siyāsa al-madaniyya) – obras cujo fundamento está no propósito de indicar que o melhor caminho para a vida política verdadeira está nas leis que se fundamentam na razão. Nessas obras, al-Fārābī deixa claro a sua preocupação com o momento por ele vivenciado, deixando dúvidas, em alguns estudiosos, quanto a uma possível militância sua com os xiitas, enquanto outros consideram que sua filosofia proporciona suportes ideológicos para os imãs[5].

    Al-Fārābī, segundo biografias[6], é apresentado como um homem que contava apenas com o indispensável para a vida, porém, parecia descontente com as cidades e regimes políticos com os quais tinha contato, o que o levava a realizar constantes viagens. Como ele mesmo indica no Livro da Religião (Kitāb al-milla) ,[...] é necessário que os virtuosos que se veem impelidos a residir nas cidades da ignorância, por não existir a cidade virtuosa, tenham de migrar para a cidade virtuosa no momento em que esta passe a existir” [7]. Como um acréscimo a este suposto motivo, é possível, também, que suas viagens tenham se dado pela afinidade ideológica com os governantes do Egito e do norte da Síria, tendo permanecido nesta até a sua morte, em 950/338H, com exceção de uma breve viagem ao Egito.

    No que concerne ao contato com a filosofia grega, al-Fārābī conseguiu reunir um grande volume de fontes, entre as quais se destacam as obras de Aristóteles e Platão, mas que não estavam excluídos comentários e escritos espúrios. Dos textos platônicos é visível a influência sobre as obras de caráter filosófico-político, sendo notória a semelhança existente entre a Cidade Virtuosa (na qual se fundamenta a concepção política farabiana) e a Cidade Ideal formulada por Platão em A República. Já no que diz respeito aos estudos acerca da metafísica e da lógica, é possível perceber que, além da influência recebida de Platão, ele considera as categorias aristotélicas de essência e existência, bem como a ordem hierárquica do universo advindo de uma Causa Primeira. Ademais, em sua filosofia, não pode ser esquecida a influência das doutrinas de vertente neoplatônicas[8] que, mescladas com as categorias próprias da metafísica aristotélica, resultam em um sistema cosmológico emanacionista que pretendia englobar, não só os problemas puramente metafísicos, mas questões que circundam o homem tanto sob as perspectivas éticas e políticas como físicas e epistemológicas.

    É vasto o volume de escritos farabianos bem como de áreas de conhecimento à que destinou atenção[9]. No entanto, são maioria os estudos farabianos que visam uma reflexão que pudesse servir de instrumento para possíveis reformas na sociedade – seja na qual ele vivia, seja no âmbito universal. Concordando com Aristóteles, o filósofo árabe também afirma ser a felicidade o fim supremo de todo homem, alcançado, somente, no interior de uma sociedade. Deste modo, suas obras políticas propõem um misto de filosofia prática e teórica, em que todo conhecimento obtido por meio da reflexão deve ter como finalidade sua efetivação no interior de uma sociedade pretensamente perfeita. É com este propósito que o Segundo Mestre concilia a ideia do Rei-Filósofo platônico com a figura do profeta, como quem pretende harmonizar leis universais e crenças particulares.



* Doutoranda em Filosofia na Universidad Complutense de Madrid. Professora da Universidade Estadual do Ceará.

[1]Al-Mu’allim al-tānī, por referência ao “Primeiro Mestre”, Aristóteles.

[2] Cf. RAMÓN GUERRERO, Rafael. Apuntes biográficos de al-Fārābī. In: Anaquel de Estudios Árabes.Madrid: s/ed, 2003. p. 231-238

[3]           A respeito da leitura realizada por al-Fārābī dos textos platônicos, cf.: VALLAT, Philippe. Farabi et l’École d’Alexandrie: Des premisses de la connaissance à la philosophie politique. Paris: VRIN, 2004. p. 77.

[4]           RAMÓN GUERRERO, Rafael. Filosofias Árabe y Judía. Madrid: Editorial Sintesis, 2001. p.110.

[5]           Acerca da afinidade entre al-Fārābī e os xiitas, cf. RAMÓN GUERRERO, Rafael. El compromiso político de Al-Fārābī ¿Fue un filósofo šī’ī ?.Actas de las II  Jornadas de cultura Árabe e Islamica (1980). Madrid: Instituto Hispano-arabe de cultura, s/informações, 1985. p. 463-477).

[6]           Sobre informações biográficas de al-Fārābī, cf. Al-NADIM. The Fihrist.vol.2. Trad. Bayard Dodge, New York: Columbia University Press, 1970. RAMÓN GUERRERO, Rafael. Apuntes biográficos de al-Fārābī. In: Anaquel de Estudios Árabes.Madrid: s/ed, 2003. p. 231-238; RAMÓN GUERRERO, Rafael. Al-Fārābī: O Filósofo e a Felicidade. In: PEREIRA, Rosalie de S. (Org.). O islã clássico: itinerários de uma cultura. São Paulo: Perspectivas, 2007. p. 287-328; RAMÓN GUERRERO, Rafael. Filosofía árabe y judia. Madrid: Editorial Síntesis, 2004. p.107-136; FILHO, Miguel Attie. Falsafa: a filosofia entre os árabes: uma herança esquecida. São Paulo: Palas Athenas, 2002. p. 195-225.

[7]AL-FĀRĀBĪ, Abū Nasr. Libro de la religión. In.Obras filosófico-políticas. Trad.int. e not de Rafael Ramón Guerrero. Madrid: Debate – C.S.I.C.,1992. p. 98.

[8]Principalmente aquelas presentes na Teologia, falsamente atribuída a Aristóteles, e no famoso Livro das Causas, também erroneamente compreendido como de autoria do Estagirita.

[9]Noticia-se que foram escritos, por al-Fārābī, cerca de 100 epígrafes, embora nem todas elas tenham se conservado até os dias atuais (Cf.FILHO ATTIE, Miguel. Falsafa: a filosofia entre os árabes: uma herança esquecida. São Paulo: Palas Athenas, 2002, p. 198.). Da diversidade das áreas às quais dedicou sua atenção, é válida a leitura de seu Catálogo das Ciências: AL-FĀRĀBĪ, Abu Nasr. Catálogo de las ciencias. 2ed. Trad. de Ángel Gonzales Palencia. Madrid: CSIC, 1953.

 



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