A compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, nos cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;
A identificação das demandas presentes na sociedade, visando a formular respostas profissionais para o enfrentamento da questão social;
A articular o saber acadêmico ao exercício profissional para contribuir com a mobilização de sujeitos individuais e coletivos na perspectiva da emancipação humana.
O presente capítulo aborda questões referentes ao ser humano, um ser social que vem se transformando ao mesmo tempo em que transforma a sociedade em que vive. Dessa forma, esse ser necessita cuidar e ser cuidado, pressuposto essencial para seu desenvolvimento. Isso requer o sentimento de pertencimento a um contexto, a uma etnia, a um modo de vida que são construídos a partir de sua inserção cultural, familiar e comunitária.
Com este capítulo, espera-se que o aluno possa fazer uma breve imersão nos fundamentos da vida social cotidiana em diferentes contextos e etnias identificando características, culturas, formas de vida, linguagem, ou seja, possa apreender a realidade e a diversidade que constitui nossa sociedade, a partir da idiossincrasia de cada povo.
O ser humano é um ser social não apenas porque depende de outros para viver, mas porque com eles e com a sociedade está sempre em interação através de normas, valores, percepções e emoções. Historicamente, o homem tem sobrevivido, em todas as sociedades, pertencendo a grupos sociais. Desde o nascimento de uma criança já se pressupõe a existência de alguém para alimentá-la, cuidá-la e ampará-la na chegada a este mundo novo.
A família aparece como a matriz da identidade de seus membros em todas as culturas, pois é ela que lhes confere um “sentido de pertencimento e um sentido de ser separado” ao se inserir em outros grupos sociais, como nos aponta Minuchin, (1982, p.53): “O sentido de pertencimento de cada membro é influenciado por seu sentido de pertencer a uma família específica; já o sentido de separação se dá através da participação em grupos extrafamiliares”.
Os primeiros grupos extrafamiliares surgem no espaço comunitário onde vivem e onde são estabelecidas as primeiras referências de igualdade com pessoas com que partilham sentimentos significativos, conflitos e contradições. Esse cotidiano permeado de relações, onde se estabelece o processo de construção de identidade entre iguais, é denominado por Lima (2003, p.299) de “sociabilidade local”.
Esse traço importante da sociabilidade local se reafirma com a disponibilidade para a cooperação, já que há uma mobilidade e um compromisso moral em ajudar e ser ajudado por aqueles que se consideram iguais. Nessa “rede de solidariedade, é estabelecida a colaboração entre familiares, amigos e vizinhos” (LIMA, 2003) e, mais do que isso, estabelece estratégias de sobrevivência e cooperação.
Sendo assim, não pode haver comunidade sem a presença do sentimento de pertencimento. Esse sentimento é inerente à condição humana, pois todos nós, de alguma forma, buscamos pertencer a algum espaço e/ou lugar, seja por uma questão geográfica, cultural, social, étnica etc.
Para Tönnies (1947), desde que existam homens que dependam uns dos outros, por suas vontades e se aprovem reciprocamente, haverá comunidade, que poderá ser de parentesco, vizinhança ou amizade. O parentesco tem a residência como lugar; a vizinhança é o caráter geral da vida comum, em que a proximidade das casas determina numerosos contatos entre os homens; já a amizade distingue-se das duas formas anteriores, pois é caracterizada por uma identidade nas formas de pensar. Portanto, viver em comunidade requer a compreensão do viver em comum, e está associado a um modo de vida.
A construção de uma ideia de pertencimento ligada a uma referência não só físico-espacial, mas também sociocultural, imprime uma força simbólica à ideia de representar-se no mundo e ocupar um espaço na sociedade. Além das características territoriais, também o tempo de moradia dentro de uma comunidade gera mecanismos e regras a serem compartilhados e ritualizados, compondo um código de obrigações e reciprocidades a ser cumprido como condição de reconhecimento e legitimidade (LIMA, 2003).
Esse sentimento de pertença a um grupo, com seus valores simbólicos e práticas culturais comuns, sedimenta o processo de formação da identidade social do sujeito, bem como as relações estabelecidas no espaço onde vive.
Como se pode ver, o homem é um ser de relações sociais e está em permanente movimento. Estamos sempre nos transformando, apesar de aparentemente nos mantermos iguais. Isso porque, internamente, nos alimentamos dos conteúdos que vêm do mundo externo e, como nossa relação com esse mundo não cessa, estamos sempre em processo de transformação, sempre construindo/reconstruindo o mundo e a nossa história.
Essa transformação independe de raça, tribo ou nação, independe das crenças que proferimos, das relações que estabelecemos. As pessoas são sempre as mesmas, com características próprias, como o nome ou os traços digitais, e sua evolução se dá pelas experiências de vida que perpassam nossa raça, nosso credo e nossa cultura. O homem pode adotar ou descartar conceitos ou preconceitos, mas existe algo intrínseco a ele, incondicionado em seu espírito: a necessidade de amor, a inclinação pelo conhecimento, pelo prazer estético, o desejo de proteção, o sentimento de solidariedade e de aprovação social.
Para compreender como se dá a aprovação social, é necessário conhecer o meio social, ou seja, o espaço onde o homem está inserido e vivencia suas experiências de vida. É preciso conhecer aspectos da vida comunitária, como costumes, crenças, hábitos e conflitos, os quais vão diferenciar-se de acordo com o contexto e as etnias.
Nossa sociedade vem constituindo-se através de uma formação sócio-histórica pautada num contexto diverso de diferentes etnias. O ano de 2008 aponta para os cem anos de imigração japonesa no Brasil, sem contar com outros povos e nações que vieram colonizando nossa pátria. Vamos destacar o povo indígena e o povo negro, que deram o sangue e o suor nas lavouras e plantações contribuindo com o progresso brasileiro. É nesse sentido que buscamos aqui apontar características importantes da constituição desses povos e sua influência para nossa sociedade.
Grande parte do que acreditamos saber sobre os índios são fatos fragmentados, histórias superficiais e imagens genéricas, empobrecedoras da realidade. A começar pela maneira aparente, quando não preconceituosa ou desinformada, como nossas escolas, livros e a própria mídia tratam do assunto.
Quando aprofundamos nossa leitura, vemos que, comparados à nossa sociedade, os povos indígenas revelam características comuns e, quando vistos de perto, mostram semelhanças e diferenças entre si, variando suas culturas, línguas, habitat, modos de organização social, política e maneiras de se relacionar com o meio ambiente. A história, os graus e as formas dos contatos que os povos indígenas têm estabelecido com outros segmentos da sociedade brasileira também são bastante diversos.
Ao revisitarmos a história, em 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, estimava-se que havia por aqui cerca de seis milhões de índios. Mas, passados os tempos de matança, escravismo e catequização forçada, estima-se que hoje a população indigena brasileira não passe de cem mil habitantes.
Os índios brasileiros sobrevivem utilizando os recursos naturais oferecidos pelo meio ambiente. Com a ajuda de processos rudimentares, eles caçam, plantam, pescam, coletam e produzem os instrumentos necessários a essas atividades. A terra pertence a todos os membros do grupo, e cada um tira dela seu próprio sustento. Existe uma divisão de tarefas por idade e por sexo, na qual geralmente cabe à mulher o cuidado da casa, das crianças e das roças; o homem é responsável pela defesa, pela caça (que pode ser individual ou coletiva) e pela colheita de alimentos na floresta. Os mais velhos – homens e mulheres – adquirem grande respeito por parte de todos, pois a experiência conseguida pelos anos de vida transforma-os em símbolos de tradições da tribo.
Os índios vivem em aldeias e, muitas vezes, são comandados por chefes, chamados de caciques. A transmissão da chefia pode ser hereditária (de pai para filho) ou não. Os chefes devem conduzir a aldeia nas mudanças e nas guerras, devem manter a tradição, determinar as atividades diárias e responsabilizar-se pelo contato com outras aldeias ou com os homens civilizados.
Muitas tribos praticam ritos de passagem, que marcam a transição de um grupo ou indivíduo de uma situação para outra. Esses ritos ligam-se à gestação e ao nascimento, à iniciação na vida adulta, ao casamento, à morte e a outras situações. Poucos povos acreditam na existência de um ser superior (supremo); a maior parte acredita em heróis místicos, muitas vezes em dois gêmeos, responsáveis pela criação de animais, plantas e costumes.
Para os indígenas, a arte mistura-se à vida cotidiana. A pintura corporal, por exemplo, é um meio de distinguir os grupos em que uma sociedade indígena se divide, como também pode ser utilizada como enfeite. A tinta vermelha é extraída do urucum; a azul, quase negra, do jenipapo, e, para a cor branca, os índios utilizam o calcário. Alguns índios realizam trabalhos de arte feitos com penas e plumas de pássaros. São feitos também trabalhos em madeira e cestaria. Aliás, os cestos são comuns em todas as tribos, variando a forma e o tipo de palha de que são feitos.
Apesar de esses artefatos serem apreciados pela sociedade brasileira, ela vê as populações indígenas ora de forma preconceituosa, ora de forma idealizada. Os preconceitos partem principalmente daqueles que convivem diretamente com essas populações, destacadamente as elites rurais, que, dado seu interesse nas terras indígenas, nesse objetivo exercem seu poder político, ideológico e econômico. Para obter seu propósito, utilizam estereótipos em relação aos índios, chamando-os de “ladrões”, “traiçoeiros”, “preguiçosos” e “beberrões”, enfim, de tudo que possa desqualificá-los. Procuram justificar, dessa forma, todo tipo de ação contra os índios e a invasão de seus territórios.
Já a população urbana, que vive distanciada das áreas indígenas, tende a ter uma imagem favorável deles, embora os veja de forma muito remota. Os índios são considerados a partir de um conjunto de imagens e crenças amplamente disseminadas pelo senso comum, que os caracteriza como os donos da terra e seus primeiros habitantes, aqueles que sabem conviver com a natureza sem depredá-la. São também vistos como parte do passado e, portanto, em processo de desaparecimento, muito embora, como provam os dados, nas três últimas décadas se tem constatado o crescimento da população indígena.
Só recentemente os diferentes segmentos da sociedade brasileira estão se conscientizando de que os índios são seus contemporâneos. Eles vivem no mesmo país, participam da elaboração de leis, elegem candidatos e compartilham problemas semelhantes, como as consequências da poluição ambiental e das diretrizes e ações do governo nas áreas da política, economia, saúde, educação e administração pública em geral. Hoje, há um movimento de busca de informações atualizadas e confiáveis sobre os índios, um interesse em saber, afinal, quem são eles.
Qualquer grupo social humano elabora e constitui um universo completo de conhecimentos integrados, com fortes ligações com o meio em que vive e se desenvolve. Entendendo a cultura como o conjunto de respostas que uma determinada sociedade humana dá às experiências por ela vividas e aos desafios que encontra ao longo do tempo, percebe-se o quanto as diferentes culturas são dinâmicas e estão em contínuo processo de transformação.
No que diz respeito à identidade étnica, as mudanças ocorridas em várias sociedades indígenas, como o fato de falarem português, vestirem roupas iguais às dos outros membros da sociedade nacional com que estão em contato, utilizarem modernas tecnologias (como câmeras de vídeo, máquinas fotográficas e aparelhos de fax) não fazem com que percam sua identidade e deixem de ser indígenas.
A diversidade cultural pode ser enfocada tanto sob o ponto de vista das diferenças existentes entre as sociedades indígenas e as não indígenas quanto sob o ponto de vista das diferenças entre as muitas sociedades indígenas que vivem no Brasil. Mas está sempre relacionada ao contato entre realidades socioculturais diferentes e à necessidade de convívio entre elas, especialmente num país pluriétnico, como é o caso do Brasil.
É necessário reconhecer e valorizar a identidade étnica específica de cada uma das sociedades indígenas em particular, compreender suas línguas e suas formas tradicionais de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais. Isso significa o respeito pelos direitos coletivos especiais de cada uma delas e a busca do convívio pacífico, por meio de um intercâmbio cultural, com as diferentes etnias.
A cultura africana chegou através dos povos escravizados trazidos para o Brasil em um longo período que durou de 1550 a 1850. A diversidade cultural da África refletiu na diversidade trazida pelos escravos, sendo eles pertencentes a diversas etnias, falando idiomas diferentes e de tradições distintas. Assim como a indígena, a cultura africana fora subjugada pelos colonizadores. Os escravos aprendiam o português, eram batizados com nomes portugueses e obrigados a se converterem ao catolicismo. Mas, através do sincretismo religioso, uma fusão de elementos culturais diferentes, os escravos adoravam seus orixás através de santos católicos, dando origem às religiões afro-brasileiras, como o umbanda e o batuque.
Trazido como escravo, o negro africano e os seus descendentes contribuíram para uma cultura brasileira com uma diversidade de elementos, como dança, música, religião, culinária e também com ingredientes que dinamizaram o trabalho durante quase quatro séculos de escravidão. Em todas as áreas do Brasil, eles construíram a nossa economia, mas, por outro lado, foram sumariamente excluídos da divisão dessa riqueza.
Durante mais de 300 anos, a mão-de-obra escrava constituiu a principal força de trabalho no país, base de toda a atividade econômica. Com o crescimento da população e da economia urbana, os escravos passaram a ser utilizados em outras funções nas cidades, empregados ou alugados por seus senhores para produzir, vender ou prestar serviços a terceiros. Os escravos foram transformados em pedreiros, sapateiros, alfaiates, carpinteiros, marceneiros, barqueiros, quitandeiras, vendedores ambulantes, ajudantes de lojas, cozinheiras, damas de companhia, amas-de-leite, carregadores e cavalariços. Com a inserção da população negra na sociedade, a miscigenação também avançava, com um número cada vez maior de mulatos. Nasce uma religiosidade popular em torno das irmandades católicas e dos terreiros de umbanda e candomblé. Em 1800, cerca de dois terços da população do país – três milhões de habitantes – já eram formados por negros e mulatos, cativos ou libertos.
Somente na segunda metade do século XIX cresce a campanha abolicionista no país. A escravidão é extinta em 1888, mas sua herança permanece na sociedade brasileira, na forma de discriminação racial, social e econômica de negros, mulatos e pobres em geral. Na sociedade brasileira do século XIX, havia um ambiente favorável ao preconceito racial, dificultando enormemente a integração do negro, mesmo depois da sua abolição. No Brasil, ainda predominava o ideal de uma sociedade civilizada que tinha como modelo a cultura europeia, em que não havia a participação senão da raça branca.
Esse ideal, portanto, contribuía para a existência de um sentimento contrário aos negros, pardos, mestiços ou crioulos, sentimento esse que se manifestava de várias formas: pela repressão às suas atividades culturais, pela restrição de acesso a certas profissões, pela restrição de acesso a lugares públicos, à moradia em áreas de brancos, à participação política e muitas outras formas de rejeição ao negro.
No campo religioso, não foi diferente. A influência da cultura negra foi inestimável, principalmente porque os africanos, ao invés de se isolarem, aprenderam a conviver com outros setores da sociedade. Essa convivência favoreceu a mentalidade comum a ambos os grupos étnicos – brancos e negros – de que a prática religiosa estava voltada para a satisfação de algum desejo material ou ideal. As promessas a santos, pagas com o sacrifício da missa, apresentavam semelhanças com os pedidos feitos aos deuses e espíritos africanos em troca de oferendas de diversos tipos.
Autoridades coloniais, imperiais e provinciais, senhores, padres e policiais se dividiram entre tolerar e reprimir manifestações culturais negras no Brasil, como a religião, o samba e a capoeira. Hoje já vemos a cultura negra miscigenada na nossa sociedade, tendo uma maior aceitação e uma maior penetração em todos os segmentos sociais.
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Ilustrações: Rogério Lopes
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