Compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, nos cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;
Identificação das demandas presentes na sociedade, visando a formular respostas profissionais para o enfrentamento da questão social;
Articular o saber acadêmico ao exercício profissional para contribuir com a mobilização de sujeitos individuais e coletivos na perspectiva da emancipação humana.
O conteúdo deste capítulo permitirá a você, acadêmico, refletir e tecer algumas considerações acerca de como as relações sociais se constituem na vida cotidiana das pessoas, considerando a dimensão ética da sociedade atual. Nesse sentido, os conteúdos dos dois capítulos iniciais deste livro, servirão de fundamentação para que você possa apreender com maior propriedade alguns conceitos e fazer aproximações com o seu cotidiano.
O ser humano é um ser em permanente construção e, nesse sentido, vai construindo um mundo para si. “O mundo humano é um mundo aberto, [...] um mundo que deve ser modelado pela própria atividade humana” (SUNG, 1995, p. 26), caracterizando assim a cultura, que é produto dessa atividade humana e que nos permite guardar a memória coletiva – tradições, costumes, valores, símbolos que regulamentam a convivência entre as pessoas.
Tais aspectos culturais são processados e reproduzidos de geração para geração, modificando-se na medida em que mudanças ou novos questionamentos e respostas vão sendo elaborados pelo ser humano, dando continuidade à sua identidade social.
A cultura, por sua vez, pode determinar a realidade do ser humano em seu grupo social, objetivamente, isto é, nas ações realizadas, de tal forma que define padrões que devem ser seguidos e observados, muitas vezes de forma coercitiva, o que poderá dificultar a compreensão das diferenças. A sociedade atual, nos moldes capitalistas, têm privilegiado e valorizado o individual em detrimento do coletivo, o que promove sérios conflitos de valores e princípios éticos, colocando na berlinda a tradição e os costumes de muitos segmentos sociais. Frente a isso, urge a reflexão e o debate ético no cotidiano da sociedade.
É sabido que as pessoas vivem em sociedade, o que significa e traduz a natureza humana no sentido da necessidade do homem relacionar-se, agregar-se com os demais indivíduos de sua espécie. Nesse sentido, pretende-se aqui discutir o espaço que a ética ocupa nessa relação entre as pessoas e a sociedade e como esse espaço se apresenta e é reconhecido pelos sujeitos sob a ótica do processo histórico.
Na medida em que se reconhece como a sociedade coloca suas regras e normas sociais e de como os grupos sociais, os segmentos sociais as interpretam e as aceitam, é possível identificar o quanto as pessoas assumem e permitem determinadas condutas e atitudes entre si. Cortella (apud BONETTI, 2003, p. 51) aponta alguns exemplos de como é aceito mais algumas coisas em detrimento de outras, referindo que até é aceito que se mate alguém, o que já é algo para se refletir, mas matar com “requinte de crueldade”, isso é chocante.
Contudo, a morte é a negação da vida, não importa de que maneira a morte aconteceu. Importa que não há mais vida e isso é o que deve ser considerado. Da mesma forma, a sociedade moderna não aceita mais o canibalismo, mas a maioria das pessoas se alimenta de carne de frango, gado, suíno, peixes e outros, e até mesmo a humana em situação de sobrevivência e preservação das próprias vidas (CORTELLA apud BONETTI, 2003 p. 51 e 52).
Por outro lado, sabe-se que existe a lei que punirá as infrações e os crimes. Porém, a lei imputa penas mais leves ou mais severas de acordo com o crime e as circunstâncias em que foi cometido. Entretanto, pode-se pensar que quem mata uma pessoa através de um tiro de arma de fogo, por facada, por atropelamento ou outra forma está tirando uma vida, seja como for.
O que é necessário entender nessa discussão ética, é que esta se coloca de acordo com o momento histórico, as necessidades e condições dos grupos sociais envolvidos e o que necessitam para viver e sobreviver. É importante lembrar que, ao se trabalhar com os segmentos sociais, deve-se considerar que estes têm os seus hábitos, os seus costumes e os seus valores. Pode-se desenvolver um trabalho com as populações sem que a reflexão que se faça sobre a sociedade direcione ou restrinja-se à concepção e princípios éticos próprios.
Ainda lembra Cortella (apud BONETTI, 2003, p. 52) que a determinação de valores e princípios éticos está diretamente relacionada com o aspecto cultural, ou seja, além de valores, hábitos e costumes, também o habitat, o meio, o lugar em que as pessoas vivem define as normas e valores daquela sociedade.
Comumente, adota-se na sociedade padrões de comportamento e de relações, que orientam e até mesmo condicionam os indivíduos para atitudes e ações que são deliberadas, muitas vezes, pelos profissionais, pelas instituições, de acordo com o que se acha mais conveniente e que vai traduzir, de certa forma, valores individuais/pessoais quanto a isso.
Há naturalmente uma tendência de projeção da carga valorativa de um sobre o outro, o que é ético para um, é o que deve ser ético e assim aceito pelo outro. Portanto, é o espaço que ocupa a reflexão ética na sociedade e, particularmente na vida das pessoas, que permitirá a construção permanente das relações sociais de convivência humana.
Assim, no Serviço Social, a reflexão ética deve configurar-se em uma reflexão crítica com suporte teórico sistematizado, como um instrumento para o agir profissional, considerando que para tal reflexão deve-se levar em conta a cultura, o momento histórico em que se está situado, bem como o espaço ou meio social com que se relaciona o ser humano.
Barroco salienta que “quando a ética não exerce essa função crítica, pode contribuir, de modo peculiar, para a reprodução de comportamentos alienantes [...] favorecendo a ideologia dominante” (2001, p. 56).
Para se refletir sobre uma ética da convivência humana, é importante e necessário que se entenda um pouco mais sobre a vida cotidiana dos sujeitos e, assim, nada melhor do que ir às raízes. Portanto, a palavra “cotidiano” tem na sua raiz o verbo cotiar (gastar pelo uso, usar todos os dias). A palavra cota (parte) vem da mesma raiz.
Assim, é possível dizer que “cotidiano” refere-se a uma cota de vida vivida a cada dia. Em outras palavras, refere-se àquilo que acontece ou se faz todos os dias, aquilo que é diário. Para Pais, “é o que se passa todos os dias: no quotidiano nada se passa que fuja à ordem da rotina e da monotonia. Então o quotidiano seria o que no dia a dia se passa quando nada se parece passar” (2003, p. 28).
Assim, a vida cotidiana leva as pessoas, muitas vezes, a não perceber ou identificar a origem ou as causas dos fenômenos sociais, das atitudes e comportamentos dos sujeitos sociais, das manifestações sociais e políticas, até mesmo banalizando-as e reduzindo-as a simples interpretações.
Há uma interação social cotidiana, peculiar em espaços sociais geográficos de contextos massificados, que propicia comportamentos, atitudes e mesmo gestos que muito mais revelam o distanciamento entre as pessoas, do que propriamente as reconhecem como próximas, ou seja, as pessoas trocam olhares à distância e, ao se aproximarem, evitam se olhar, até fingindo que não se viram.
As rotinas diárias dão estrutura e forma ao que as pessoas fazem;
Revelam a criatividade com que as pessoas constroem a realidade, superando as funções, normas e expectativas partilhadas;
A interação social lança luz sobre os sistemas sociais maiores.
O sentido e significado da vida e das relações sociais podem ser conhecidos a partir de estruturas e relações fundantes, quais sejam: econômicas, políticas, sociais e culturais de uma sociedade (macrossociologia), bem como a partir da interação social cotidiana (microssociologia).
Agora, acadêmico, você poderá melhor compreender a complexa teia das relações sociais, no cotidiano da vida das pessoas e como estas repercutem no conjunto da sociedade.
O ser humano é um ser social, ser de relações, um ser de sociabilidade, vivendo atualmente em um mundo globalizado, o que lhe exige mais do que nunca a atenção sobre seu comportamento frente às outras pessoas.
O mundo globalizado possibilitou ao ser humano estabelecer relações entre si em um curto espaço de tempo, superando milhares de quilômetros de distância. Isso permite maior comunicação entre os povos, ampliação de negócios e das economias dos países, o turismo, mas também a influência entre as diferentes culturas modificando valores, hábitos e costumes.
O filósofo inglês Thomas Morus é autor de uma célebre frase: nenhum homem é uma ilha. Essa frase ajuda a compreender que a convivência é essencial para o ser humano, pois é assim que se descobre um ser moral e ético. Contudo, é na convivência social que surgem os conflitos e as indagações morais, ou seja, questionamentos sobre como cada um deve agir sobre determinada circunstância, como reagir frente às injustiças ou como comportar-se frente a outra pessoa.
Portanto, cada vez mais é necessário que as pessoas assumam a condição de sujeitos éticos, isto é, tenham a consciência de que as atitudes de um repercutem diretamente na vida dos outros, o que vai exigir também que cada um faça o exercício autônomo de escolhas e de tomada de decisões, responsabilizando-se pelos resultados ou consequências de suas ações. Assim, as atitudes individuais repercutem no coletivo.
Nesse sentido, é necessário que a reflexão ética possibilite conhecer e analisar as circunstâncias em que cada fenômeno social se desenvolve, pois sendo assim serão consideradas e respeitadas as condições históricas, sociais e valorativas dos diferentes segmentos sociais. Deve-se considerar ainda, que não cabe à ética julgar, mas analisar e compreender o comportamento das pessoas em sociedade.
Assim, para uma ética de convivência, é necessária a possibilidade de participação e envolvimento de todas as pessoas nas decisões e no regramento da sociedade, evitando a participação apenas de uma minoria. Somente a participação das pessoas nas decisões e definições de normas sociais fará com que estas realmente assumam suas responsabilidades frente ao conjunto da sociedade.
Contudo, deve-se considerar que o desenvolvimento das sociedades nas últimas décadas, principalmente com o avanço tecnológico e o processo de globalização, desencadeou nas pessoas, nos diferentes segmentos sociais, uma avalanche de consumo de mercadorias e serviços, trazendo a valorização do ter em detrimento do ser. Nesse sentido, urge a reflexão ética no cotidiano da vida em sociedade.
A ética deve orientar não somente as relações individuais, mas também as relações que as pessoas estabelecem com as instituições, qual seja a escola, a família, a empresa, a igreja, o Estado. A partir disso, também será possível refletir sobre o compromisso que se deve ter com as coisas do coletivo, os problemas sociais que causam tanta indignação, mas que objetivamente não se faz nada para mudar.
Nesse sentido acadêmico, segue a transcrição de alguns trechos de um texto escrito por Paulo Marinho, intitulado “Prática Ética” e publicado no Jornal Vale dos Sinos/RS (10/11/2006), que permite a todos refletir sobre o comportamento e as atitudes das pessoas no cotidiano, e que instiga a buscar a resposta para as perguntas: o que posso fazer? Como devo agir perante as outras pessoas?
O texto relata uma cena em um supermercado em que uma pessoa, após ter feito suas compras, dirigiu-se aos caixas para pagamento escolhendo um em que havia somente uma senhora na fila. Sentiu-se alegre com a possibilidade de logo ser atendido e ao mesmo tempo, privilegiado em relação às demais pessoas ali presentes:
Então, num dos guichês, a prosaica imagem de uma senhora segurando uma garrafa de refrigerante debaixo do braço, logo atrás de uma outra que já está pagando a conta [...]”.
Entretanto, para sua surpresa, “surge um homem com seu carrinho abarrotado feito um transatlântico insólito e ameaçador e se aboleta em sua frente. É o marido da mulher do refrigerante, que disfarçada e dissimuladamente guardava lugar para ele.
Essa é uma cena que não raras vezes acontece com muitas pessoas e até mesmo já deve ter acontecido com você, acadêmico, e que sem dúvida causou muita indignação frente ao comportamento e atitudes das pessoas. Porém, isso acontece não só nos supermercados, mas também nas filas de ônibus, no cinema, na lancheria da faculdade, na farmácia etc., e o que dizer disso? Nesse sentido, as pessoas devem se perguntar: como devo agir ou como são as minhas atitudes frente aos outros?
A ausência de ética irrita mesmo. Irrita tanto que a mídia vive discutindo-a. Reúne cinco ou seis sabichões [...] mas esquece de discutir a ética da esquina. Do sujeito que tem o rádio do carro furtado e sai correndo para comprar um outro dos ladrões automotivos. Dos canalhas que se adonam das vagas para pessoas portadoras de necessidades especiais nos estacionamentos [...].
A ética do cotidiano da vida social guarda valores que muito mais refletem os interesses individuais do que coletivos.
As artimanhas do mundo capitalista globalizado colocam a prova princípios e valores éticos fundamentais para a convivência humana em sociedade, impedindo o espaço para a reflexão ética sobre os fenômenos sociais e as circunstâncias que deles decorrem, fragilizando as relações humano-sociais.
Portanto, a ética possibilita às pessoas refletir sobre as atitudes, posturas e decisões individuais cotidianas, e os valores que nelas estão implicados, possibilitando a tomada de consciência sobre a condição de autonomia e liberdade dos sujeitos sociais, abrindo margem, assim, para a construção de novos valores e relações sociais fortalecidas na coletividade.
Nesse sentido acadêmico, é importante a análise crítica do contexto social para que seja possível identificar e compreender as expressões da questão social na sociedade capitalista, os valores e o momento histórico em que são geradas as circunstâncias da vida cotidiana das pessoas, com a perspectiva de desenvolvimento de processos emancipatórios.
Dessa forma, a questão primordial é superar a ótica da benevolência e alcançar uma outra visão possível, a da ética que sinaliza um projeto político e coletivo, que visualize a sociedade como um conjunto. É nesse sentido que o projeto político profissional do Serviço Social irá indicar a direção social da ação profissional, demarcando a intenção entre fazer o bem às pessoas e desenvolver uma prática participante objetivando a organização da vida social, através de princípios e valores éticos universais. Pode-se fazer o bem às pessoas também dessa forma. Porém, é necessário o questionamento sobre que proposição, mediante que projeto e que produto final resultará.
A ética definida na atividade profissional do assistente social, na relação que se estabelece entre as pessoas e a sociedade, direciona-se para uma compreensão de projeto coletivo, que se identifica com as divergências, com as desigualdades, com as diferenças e com os diferentes segmentos e camadas da sociedade.
Portanto, é compreender que esse profissional orienta-se pelo princípio da liberdade, como um valor, como uma matéria-prima para a vida cotidiana. A liberdade é dada ao ser humano para que ele possa fazer suas escolhas e tomar suas decisões.
Assim, é importante e necessário que as pessoas tenham uma base ética sólida, formada por princípios e valores universais, para que possam fazer suas escolhas e ter atitudes de forma responsável em relação aos outros e também ao meio ambiente.
Dessa forma, compreende-se a liberdade como um princípio não individualista, mas coletivista, pois “a minha liberdade é tão importante quanto a do outro”. E dentro desse entendimento do projeto político social, “a minha liberdade acaba, quando acaba a do outro” (CORTELLA apud BONETTI, 2003, p. 58).
Nesse sentido, compreende-se que o ser humano-social constrói sua liberdade a cada dia, a partir do existir e é por isso que deve projetar suas ações. Tal construção não se dá isoladamente, pois como já se sabe, a pessoa é um ser de relações.
É através das ações, das estratégias, dos instrumentos que o assistente social traduzirá seu compromisso ético, o projeto político garantindo-se o processo de mudança e de transformação social. Em cada momento histórico, novas demandas para o assistente social são identificadas.
Dessa forma, o espaço da ética na relação do ser humano com a sociedade deve ser um espaço de reflexão sobre o seu cotidiano de relações. Portanto, este é um tema essencial, tendo em vista as modificações e transformações que os segmentos sociais vêm sofrendo na atualidade na sociedade capitalista, o que provoca novos comportamentos e modos de vida.
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Coordenação e Revisão Pedagógica: Claudiane Ramos Furtado
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Diagramação: Marcelo Ferreira
Ilustrações: Marcelo Germano
Revisão ortográfica: Igor Campos Dutra