Utilizando o Checklist

Obs: Este texto esta direcionado para pilotos comerciais, no entanto seus fundamentos são de grande utilidade para o vôo a vela.

Apesar de o comandante ser o responsável pela operação segura de uma aeronave, ele não é necessariamente a pessoa que esta voando o tempo todo. Geralmente divide os vôos com o seu co-piloto.

Há alguns anos atrás em um vôo saindo do Cairo, era a vez do meu co-piloto voar. Eu lia o checklist antes da partida dos motores e ele respondia. O checklist de um Lockheed L-1011 ou de um Boeing 747 é de grande complexidade, mas pode ser completado em meio minuto. Isso é uma prova de que o piloto está adepto a responder aos desafios do checklist, mas não prova necessariamente que ele checou todos os itens para o vôo.

Meu co-piloto para este vôo era muito experiente em responder, por memória, os itens do checklist. Ele parecia orgulhoso com a velocidade na qual respondia corretamente a tudo o que era por mim lido. Mas após o término, eu observei que dois switches (interruptores), estavam impropriamente posicionados.

Então eu disse:

- "Bob, Eu gostaria de fazer uma pequena experiência! Você se importaria se nós lêssemos o checklist novamente?"

Aparentemente sem suspeitar de algo errado ele respondeu:

- "Claro que não Skipper, vá em frente!"

Então eu comecei novamente a ler todos os itens um por um, só que desta vez de baixo para cima. Isso interrompeu a rotina de Bob de responder a tudo rapidamente e por memória. Ao invés, isso o forçou a realmente checar todos os itens e responder de acordo, e fez também com que ele percebesse que os dois alarmes de aviso de stall estavam incorretamente desligados.

Complacência e familiaridade (familiarização) causam displicência, coisa que a aviação não pode tolerar. Inúmeros acidentes aconteceram na aviação geral e na comercial devido a pilotos não gastarem tempo suficiente com itens do checklist e confirmar que as coisas realmente estão onde elas deveriam.

Alguns anos atrás, o capitão de um Boeing 727 estava pronto para decolar da pista 08 do aeroporto de Albuquerque no Novo México. Assim que ele avançou as manetes, o alarme de aviso de decolagem insegura soou. Algo estava errado. Ele imediatamente recuou as manetes e taxiou para fora da pista. A tripulação checou para ver se o compensador, spoilers e flapes (neste caso 5 graus), estavam posicionados corretamente. Tudo estava aparentemente normal.

Após explicar para os passageiros que a decolagem avia sido abortada por causa de coelhos na pista, o capitão iniciou outra decolagem. Mais uma vez o alarme de aviso soou seguido de outra decolagem abortada e mais um anúncio sobre aqueles malditos coelhos. Os três tripulantes mais uma vez confirmaram que tudo estava posicionado corretamente e concluíram que o problema estava no sistema de alarme. Para solucionar o problema o comandante pediu para o engenheiro de vôo desligar o sistema de alarme.

Quando o 727 se aproximava dos 100 nós durante a terceira corrida o co-piloto gritou: "Meu deus, são os flapes. Aborte, aborte!"

Após deixar a pista novamente, desta vez com os pneus e freios superaquecidos, os tripulantes finalmente viram que os flapes haviam sido estendidos apenas 2 graus, ao invés dos 5 requeridos, o que também significa, no caso do 727, que alguns dos LEADING EDGE DEVICES (slots), estavam recolhidos.

O que faz este incidente tão marcante é que os três tripulantes haviam olhado e não viram a indicação de 2 graus. Ao invés eles viram uma indicação de 5 graus porque isso é o que eles estavam condicionados a ver. Se a decolagem tivesse sido continuada, seria bem provável que o avião não teria pista suficiente para decolar com segurança. Passageiros, tripulação e possivelmente alguns coelhos que realmente vivem nas redondezas do aeroporto, seriam sacrificados pela complacência do checklist.

A forma apropriada de se usar o checklist é de inicialmente não usa-lo. O piloto deve usar uma fluência padrão e visual (Flow), este é um método organizado de atender a todos os interruptores, controles e instrumentos no cockpit. Toque em todos os itens e gaste o tempo suficiente para ter a certeza que eles indicam, operam e estão posicionados corretamente. Após isso ser feito, deve-se usar o checklist na devida maneira para ter a certeza que nada foi esquecido.

Para ganhar tempo, alguns pilotos usam o checkilist durante o táxi. Esta é uma ótima forma de entortar metal!

Fonte: Site Asas Brasil. www.asasbrasil.com.br 
Texto tirado do livro "Flying Wisdom", de Barry Schiff.
(comandante de L-1011 e com 25.000 horas totais)
Traduzido por Sérgio A. Guimarãres.
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