Acidentes em Exibições Aéreas

O FATOR PILOTO

Quase todas as Forças Aéreas do mundo pagam um alto preço em vidas de muito bons e altamente qualificados pilotos em acidentes relacionados com exibições aéreas. Depois do acidente a pergunta é quase sempre a mesma: Como é possível que tão bom piloto haja cometido uma falha de pilotagem tão grave que terminou pagando com sua vida? Certamente nós podemos citar inúmeras razões como explicação, mas já é muito tarde.

Como piloto e Investigador de Acidentes desejo transcrever alguns conceitos sobre alguns problemas comuns que afetam os pilotos nas exibições. Vou tratar de descrever os sintomas e deixar que cada um dos leitores tire suas próprias conclusões. Minha intenção é falar aos pilotos sobre assuntos dos pilotos.

  1. BOA CRÍTICA - Os pilotos designados para realizar uma exibição aérea são os que tem maior adestramento, maiores experiências e maiores qualificações de vôo. Nas Forças Aéreas, experiência e hierarquia militar vão normalmente juntas, razão pela qual, usualmente no esquadrão ou esquadrilha não existem muitos outros pilotos mais antigos e com experiência superior ao piloto escalado para este tipo de operação. Por este motivo, poucos comandantes tem tempo e a autoridade moral para realizar críticas que o piloto escalado para exibição esteja disposto a aceitar, é comum escutar depois de um acidente comentários de outros pilotos ou superiores, de alguma sugestão ou advertência que formularam ao piloto e que, lamentavelmente, coincidem com o fator causal do acidente, mas que em um momento não foram aceitas pela vítima.

  2. COMPETITIVIDADE ENTRE PILOTOS - Em muitos casos o Comandante pode decidir designar o Piloto analisando qual é o que realiza melhor uma rotina de exibição, dadas as características particulares dos pilotos de combate, este tipo de seleção pode levar a que algum piloto, no afã de demonstrar sua habilidade, incorra em riscos excessivos ou em manobras que superem sua real capacidade. Muitos acidentes ocorrem nestas competições prévias.

  3. ATENÇÃO AOS DETALHES - Durante a preparação das exibições, o piloto tem tendência a prestar mais atenção aos parâmetros de entrada de cada manobra; velocidade, altitudes; posições de entrada, regimes de potência, etc., mas não dá a mesma atenção aos mesmos parâmetros na saída de cada manobra ou como cada manobra está conectada à outra. Eu poderia dizer, que na mente do piloto existem partes da exibição que ele conhece com grande detalhe e outras partes da exibição, geralmente manobras de transição, que ele não considera perigosas ou difíceis e que ele as pode controlar facilmente com sua habilidade. Muitas vezes, estas zonas cinzentas são as que produzem o acidente.

  4. OUTROS PILOTOS AMIGOS, FAMÍLIA E MULHERES LINDAS - Em muitos casos, durante a exibição, o piloto é tentado a empurrar os limites ou fazer algo diferente quando ele sabe que está sendo observado por outros pilotos. Ele pensa, que vai demonstrar aos outros, quantas coisas podem ser feitas com este avião, que eles não sabem e em muitas vezes, nem ele sabe. Em outras ocasiões, o piloto está em contato com o público antes de decolar para a exibição e durante o vôo, uma parte de sua mente está dedicada a pensar em alguma pessoa do público que está observando a exibição (amigos, amigas, familiares, etc.). O piloto deve voar para si mesmo e não para o público.

  5. ORDENS CLARAS E TEMPO PARA PRÁTICAS - Em algumas oportunidades o piloto recebe diretivas pouco claras e vagas de seu Comandante sobre o tipo de exibição que tem que realizar e poucas horas ou minutos antes do vôo. Em muitos casos o piloto não tem o adequado tempo para praticar por diversas razões: disponibilidade de aviões, meteorologia, problemas de manutenção, etc., e portanto, quando ele decola para realizar a exibição, não tem uma clara idéia do que vai fazer. Estes fatores podem ter conseqüências fatais.

  6. MUDANÇA DE CENÁRIO, METEOROLOGIA - Em algumas circunstâncias o piloto realiza as práticas em um aeródromo diferente de onde deve realizar a exibição, a falta de conhecimento e familiarização podem produzir falsas sensações de altura e a falta de referências conhecidas pode levá-lo à desorientação. O mesmo acontece com as condições meteorológicas e visibilidade marginais, dado que em muitas situações, quando as condições meteorológicas são marginais para a exibição, o piloto pode estar tentado a realizá-la utilizando as margens de segurança. Em geral, se pode dizer que esta é uma das condições de maior risco, dado que se a meteorologia é ruim, o piloto desiste da exibição, mas quando as condições são marginais, em muitos casos, o piloto pode receber pressão dos organizadores para realizar a exibição.

  7. FALTA DE UMA ROTINA DE EXIBIÇÃO ESTÁVEL - Em alguns casos o piloto não se estabilizou em uma rotina de exibição e está tentando incorporar novas manobras durante a exibição, muitas vezes, estas manobras as quais ele não esta familiarizado, podem originar situações potencialmente perigosas.

  8. OUTRA PEQUENA EXIBIÇÃO ANTES DA PARTIDA - É muito comum que o piloto depois da exibição permaneça no aeroporto e que, a pedido dos organizadores, pelo público, ou bem por ele mesmo, decida realizar algumas passagens ou manobras depois da decolagem de partida, em geral o piloto não tem prevista uma rotina, esquece dos mínimos e dos obstáculos e normalmente, o peso da aeronave é consideravelmente maior que o habitualmente utilizado para a exibição, alterando e degradando as performances da aeronave, em muitos casos, uma inocente passagem baixa terminou em um acidente fatal.

CONCLUSÕES:

Como foi dito anteriormente, os acidentes durante exibições obedecem em geral ao fator causal Piloto, este fator, talvez o mais complexo, já que intervém uma grande quantidade de diferentes aspectos, cada um dos quais com sua dose de risco, pelo qual o piloto que realiza exibições deve estar ciente destes fatores, assim mesmo, o Comando deve extremar as medidas para que o piloto designado para realizar exibições as realize com o maior profissionalismo e o menor risco.

RECOMENDAÇÕES:

Baseado em todo o anterior e para que sua aplicação seja mais simples, se transcreve a seguir uma lista tentativa de recomendações para os Organizadores e os Pilotos. Obviamente, cada um deve adaptá-las e modificá-las de acordo com o que seja conveniente em cada caso particular.

AOS ORGANIZADORES:

1) Escolha do Piloto (evitar seleção mediante sistema competitivo).
2) Escolha a análise das rotinas de exibição.
3) Aprovação das rotinas pelo Comandante do Esquadrão/Esquadrilha.
4) Controle da habilidade do piloto para executar as manobras.
5) Deteção das manobras ou condições potencialmente perigosas.
6) Análise de outras rotinas alternativas.
7) Designação de um controlador terrestre mais antigo que o piloto.
8) Informe pós-exibição, mencionando situações perigosas.

AOS PILOTOS:

1) Conhecimento completo das qualidades de vôo do avião.
2) Conhecimento das suas limitações pessoais.
3) Preparação da exibição.
4) Análise das manobras de exibição, manobras perigosas.
5) Discutir e analisar a exibição com outros pilotos.
6) Práticas e críticas de outros pilotos.
7) Diminuição gradual de alturas - determinar as alturas mínimas seguras.
8) Práticas, aprovação e qualificação do piloto para realizar exibições.
9) Padronização das rotinas de exibição.
10) Reconhecimento e análise prévio do cenário.
11) Mínimos meteorológicos para cada tipo de rotina.
12) Evitar demonstrações não previstas por mais simples que pareçam.

Resumo da palestra apresentada pelo Comodoro Luiz E. Ortiz, Chefe do Depto de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos FAA. (XII Comitê de Prevenção de Acidentes). 

Comodoro Luiz E. Ortiz