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Relato do primeiro vôo de onda com o planador P1

Prezados amigos,

Sábado passado, durante a tradicional festa junina de Ipuã, combinei com o Ekki de fazermos um vôo de P1 no dia seguinte.
Lá pelas 10:00 da manhã, o Ekki passou em casa e perguntou se ainda queria fazer o vôo.

- Claro, respondi! E do gramado mesmo, pudemos observar o tempo, um tanto esquisito, mas promissor. Assim, peguei um agasalho, pois nunca se sabe.

Com toda calma, tiramos o P1 do hangar, eu e o Carlão levamos para a pista na mão mesmo, enquanto o Ekki dava uma inspecionada no PA 18 GIW. 

Colocamos os pára-quedas enquanto instruíamos o Adolfo de como seria o reboque e enquanto nos acomodávamos no planador, o piloto rebocador checava os magnetos.

Sinal de positivo ao Carlão e iniciamos a rolagem. Logo de cara, já deu para perceber que o P1 tinha futuro, que apesar dos comandos extremamente duros, percebe-se a eficiência dos mesmos e que apesar de seu peso, decolamos com 550 Kgs e para quem conhece Ipuã, foi simplesmente perfeito. Sem sustos!!

Durante o reboque já se percebe o silêncio na cabine e de como a ventilação é eficiente. Visibilidade frontal um pouco prejudicada, primeiro por defeito do plexi e segundo precisaria ser aumentado em direção ao nariz, pouca coisa, já melhoraria em muito o ângulo de visão, principalmente no reboque.

Com 600 m em cima de Ipuã, o rebocador aproou para a serra do Roncador, ao Norte, onde se via cúmulos, vários deles e voando em zig-zag, sempre contra o vento, começamos a sentir ascendentes, cada vez mais fortes e constantes. Um pouco de turbulência também se sentia e com 900m decidimos desligar e sempre contra o vento, iniciamos uma subida batalhada e sem rodar a princípio.

Subimos até 1.300m com bastante dificuldade, quando resolvemos rodar uma "térmica" mais forte e foi daí em diante que começamos a subir de fato e perceber que não eram térmicas nada e sim vários rotores e que por baixo deles, eram pouco reconhecidos.

Com 2.000m, ultrapassamos os rotores e o vôo entrou numa calmaria de fazer gosto. Agora, sempre contra o vento, velocidade de 85 Km/h, subindo com 1 m/s até 2.5 m/s, iniciamos uma subida constante e a partir daí, deu para enxergar as lenticulares, estávamos numa onda de fato e que estávamos na secundária dela. Nos encontrávamos em cima de Monteiro Lobato e aí permanecemos até alcançar 4.000m, altura que estipulamos, em comum acordo, como limite. Infelizmente estávamos sem oxigênio!

Aumentamos a velocidade e seguimos contra o vento em direção NW, às vezes de freio aberto para não ganhar mais altura e quando estávamos sobre São Francisco Xavier, decidimos pular para a primária. A esta altura, todo o sistema era perfeitamente visível, e creiam, exatamente como nos livros.

Este foi o terceiro vôo de onda juntos, ora em planadores separados ora de Fournier e agora de P1. Em nenhuma das vezes, pode-se ver um sistema tão bem definido.

Perdemos por volta de 1.000m até chegarmos na região de ascendência da onda primária e que para nossa surpresa, não estava melhor ou mais forte que a secundária. Durante este trajeto, pode-se sentir de como o P1 é bom. A velocidade de 150 Km/h definida pelo Ekki como de Vne, o planador nem da bola, é firme e com um planeio invejável. Alcançamos facilmente os 4.000m novamente e decidimos navegar em direção à Guaratinguetá. A esta altura, nos encontrávamos exatamente entre Monte Verde e a represa de Igaratá. Voamos em direção a Guará, velocidade de 150 Km/h freio meio aberto e com poucos minutos, estávamos no travéz de Pindamonhangaba e Campos do Jordão e que, fazendo as contas após o vôo, calculamos uma velocidade final, coisa entre 250 e 300 Km/h neste trecho.

Foi exatamente neste ponto, que resolvi fechar os freios e reduzir a velocidade. O climb simplesmente colou e com 4.300m, foi a vez do Ekki acalmar os ânimos e abrir o freio novamente. O frio era intenso a esta altura, pés congelados e a ponta dos dedos já não se sentia mais apesar de as unhas permanecerem ainda de cor normal. Assim como eu, o Ekki trepidava
de frio!!

Olhando para NW, percebemos o tempo começando a fechar e a partir daí, decidimos voltar para Ipuã. Todo o tempo mantivemos 4.000m e tudo subia nesta volta. Ainda com 4.000m em cima de casa, notamos, a esta altura, que os comandos estavam mais duros ainda e a graxa dos cabos do direcional endureceu a ponto de termos poucos centímetros de comando! Abrimos o freio e iniciamos uma descida em espiral, nos pequenos buracos ainda existentes e depois de três horas e meia de vôo, sendo duas delas, constantemente à 4.000m, pousamos em Ipuã. Também no pouso, o P1 não poderia decepcionar,
velocidade de stol baixa e pouso suave, o que me fez pensar que o problema de Biplace no Brasil poderá, com ajuda de todos, ser rapidamente solucionado. O planador é uma maravilha!

Para a felicidade do Ekki, todo o tempo do vôo ele repetia:

- Foi para isso que construí o P1. Meus seis anos de trabalho foram recompensados!!

- O P1 agora já tem ganho de altura de 3.000m.

Vôo realizado em 07 de Setembro de 2002.
Autor: Ruy Cardoso de Almeida

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