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Voando Dentro de um CB

Este relato é verídico e retrata com toda a dramaticidade do fato, um dos mais extraordinários vôos já feitos em planador, muitos anos atrás, mas tão atual como se fosse hoje. Um vôo dentro de um "CB".

Aconteceu em Benalla, Austrália, em um 9 de janeiro de 1949. O piloto, Keith Chamberlin teve sorte de escapar com vida e poder contar como é, de verdade, um "CB" por dentro, estando a bordo de um planador Grunau Baby, fabricado na Alemanha, em 1937.

No domingo pela manhã, no Clube de Planadores Vitória, em Benalla, fazia bastante calor, com perspectivas de esquentar ainda mais. Um dia típico de grandes vôos. Às 9h30 pequenos cúmulos começaram a se formar a NE e, lá pelas 11h15, o céu já estava repleto de formações. O vento era muito fraco e Uwe Radok perguntou se eu não queria fazer um reboque de avião para verificar as condições de vôo. Ele achava que daria para alcançar pelo menos 1.800 metros e que a razão de subida não teria limites, o que depois ficou comprovado.

O Grunau de cor cinza foi retirado do hangar e o Tiger Moth, do Royal Victorian Aero Club, preparado para a decolagem. A esta altura a temperatura já se encontrava alta, ao redor dos 30°C e eu queria subir logo. Enquanto vestia meu macacão de vôo, Radok fixou o metereógrafo no planador (metereógrafo registra a pressão, temperatura e umidade relativa, mas este, além disso, ainda indicava a aceleração).

Engatada a corda no Tiger o reboque começou e, após um circuito sobre o campo, achamos uma térmica logo acima dos hangares, a 400 metros. Desliguei na térmica que dava uns 20 cm/s depois de cinco minutos de reboque. A hora exata do desligamento foi 11h35.

O vôo estava bastante calmo e a razão de subida constante, entre 1 e 2,5 m/s, o que permitiu permanecer dentro da térmica até chegar a 1.700 metros. Daí por diante era só voar abaixo de uma nuvem, subir até a base a 1.800 metros e depois perder altura até a nuvem mais próxima para subir de novo até a base. A razão de subida agora era ainda melhor, 3 m/s no centro das térmicas, e muito suave na base das nuvens.

Minha altura máxima era variável e uma das térmicas mais fortes me levou até 2.000 metros, acima da base de algumas nuvens vizinhas. Nesse momento olhei para o metereógrafo e vi que estava parado. Pilotando com a mão esquerda dei algumas pancadas no instrumento e ele voltou a funcionar. Por mais de uma hora não cheguei abaixo dos 1.300 metros, numa zona relativamente quente, enquanto que a 1.800 metros estava bastante frio. Era mais confortável voar baixo.
Depois de duas horas de vôo, e como as condições fossem bastante favoráveis, resolvi tentar as cinco horas necessárias que me dariam o "C" de Prata.

Mas 45 minutos depois, as condições já não eram tão boas. Tinha descido a 900 metros e estava chegando na marca dos 600 sem maiores possibilidades de subida. Quando se sobe a 1.800 metros e depois se desce a 600, parece estarmos tão baixo que se sente a vontade de começar a aproximação. A 450 metros encontrei novamente uma térmica, mas tão fraca que não dava para subir. A 250 iniciei a perna do vento, já pronto para pousar, tentando ainda esticar o planeio, pois estava voando há duas horas e 55 minutos e queria completar as três horas. Foi quando vi um Grunau azul à minha direita a 300 metros e subindo. Uma visão irritante quando se está a 180 metros, mas mesmo sem muita esperança de virar térmica a 180 metros, nesse momento consegui. Subi a 900 metros e alcancei o Grunau azul, subindo os dois em térmicas diferentes até chegarmos aos 1.800 metros.

Neste momento é que vi a nuvem. Estava lá, a SE e despejando chuva numa área de milhas. Na posição em que se achava em relação a mim, não tomei muito conhecimento dela. Chuviscava um pouquinho no aeroporto, mas o centro da nuvem estava uns seis quilômetros de distância. Mas as condições meteorológicas tinham se alterado bastante. Onde, pouco antes, havia uma razoável porção de céu azul, agora estava coberto de nuvens. Voei em direção ao norte, deixando o campo para trás e depois de ganhar e perder altura, estava agora a 1.200 metros, perdendo de vista o Grunau azul.

A nuvem estava agora a E do campo e à minha direita. Estava bastante escura, mas como várias outras nuvens haviam também escurecido e quando voava por baixo delas não sentia nenhum efeito desagradável, não lhe dei a maior atenção.

Achei mesmo que poderia usá-la para ganhar mais altura antes de voltar para o campo e assim rumei para baixo dela, onde a razão de subida era de 2,5 a 5,0 m/s, muito suave. Cheguei a 2.100 metros e continuei em frente. Estava ainda sob a base, mas conforme voava para frente vi que a sua borda estava debaixo de mim e que chovia na parte que tinha deixado para trás.

Aumentei a velocidade e entrei no centro da nuvem. Senti uma sensação estranha de ausência de qualquer som, e só podia perceber uma estranha névoa subindo em espiral. O painel do Grunau era composto de um velocímetro, um altímetro, bolinha de nível, variômetro e bússola. O vôo horizontal dentro da nuvem durou meio minuto e depois começou a farra! Uma asa desce, a velocidade aumenta e o jogo começa. Cabrei o manche e estabilizei o planador. O nariz sobe, cedi o manche tentando antecipar o estol, mas só consegui provocar o aumento da velocidade.

Comecei a sentir que as coisas estavam ficando realmente pretas. Mais estols e piques e, de repente, num relance, uma visão rápida do chão, num ângulo de 45° e girando em alta velocidade. Estava em curva de grande inclinação e agora a nuvem cobria novamente a terra e me envolvia completamente. O tempo continua passando e eu pensando o que fazer agora. Será que o Grunau vai agüentar ? A que altura serei levado ? Depois de um certo tempo de picar e estolar, não obstante a sensação não ser nada agradável, acomodei-me. Uma olhada no altímetro mostrava 2.700 metros. Estava alto!

Tive idéia de saltar de pára-quedas, mas resolvi em contrário ao considerar que isso implicaria na perda do planador e dos instrumentos. Sabendo que o Clube não teria meios de comprar um novo Grunau, decidi ficar com o planador até se desmanchar.

Olhando o gráfico repetia: "Não sei, não entendo, não posso acreditar". A razão de descida chegou a 100 m/s.

Nesse momento pedras de granizo começaram a bater num ângulo de 45° do lado esquerdo. Todo o granizo vinha desse lado. Um dos motivos desse fenômeno poderia ser porque o planador estaria glissando todo o tempo e foi aí que vi inúmeros raios saindo ao meu redor. Alguns segundos mais e me encontrava numa situação bastante crítica picando a 130 km/h. Quis cabrar e verifiquei que necessitava de ambas as mãos para puxar o manche. Comprimido brutalmente no assento, senti toda a pressão dos "G". Minha cabeça foi esmagada contra o peito e minha boca abriu-se descontroladamente. Senti como se todo o sangue estivesse deixando a minha cabeça. O gráfico de aceleração do metereógrafo mostraria depois que a recuperação estava em torno de 2 G.

Depois de recuperar, fui novamente imprensado contra o assento e logo depois dependurado pelos cintos com metade do corpo para fora da cabine, o que se repetiu por umas três vezes. É possível mesmo que tenha feito vários loopings seguidos. A única vez que tive certeza de minha posição foi quando fiquei dependurado para fora. Era a prova que estava voando de dorso!

O altímetro acusava 3.600 metros, advindo uma nova preocupação: a falta de oxigênio. Tive então a minha chance de saltar, mas não poderia fazer nada se faltasse oxigênio. Continuava subindo no meio do granizo. Agora com pedras grandes, com 1,5 cm de diâmetro. Como estava voando a 90 km/h eu as sentia com bastante força no meu rosto. Com os olhos doendo, baixei os óculos mas estes ficaram imediatamente embaçados. Caíram alguns flocos de neve na cabine.

Apesar de não poder fazer realmente nada, continuei vigiando o velocímetro. Estava cansado de tentar corrigir os estols e picadas sem grandes resultados e resolvi simplesmente cabrar o manche e segurar. Não importaria mais o que acontecesse, o manche ficaria cabrado. Estava a 4.000 metros, parei de pensar e fiquei esperando que algo acontecesse.

O altímetro começou a descer lentamente a 3.600 metros!

Finalmente estava descendo. Notei que já há algum tempo estava na mesma posição. Uma asa parecia estar mais baixa e sentia grande pressão no assento. Devia estar numa curva de grande inclinação ou em parafuso. Não sabia o que estava acontecendo, mas como estava descendo, fiquei lá, sentado, segurando o manche para trás. Uma rápida olhada no altímetro e o indicador completava uma volta por segundo, o que era mais ou menos 60 m/s. A velocidade 90, 95 km/h.

Continuei sentado, sem ação, 2.700, 2.100, 1.200 metros, e comecei a pensar que estava mesmo em parafuso, apesar de dizerem que o Grunau não entrava em parafuso a não ser com pilotos muito leves. Os calcanhares estavam no piso, com a ponta dos pés nos pedais. Tentei levantar os pés para apoiá-los nos pedais e isso foi muito difícil por causa da centrífuga da curva. Agora 300 metros!

Consegui ver a terra e vi que girava uma revolução a cada quatro segundos, o que explicava a força que impedia o movimento dos meus pés. 240 metros e saí da nuvem! Dei pedal contrário e saí da curva. Não consigo lembrar se o manche ainda estava colado e eu o puxei ou se o planador saiu sozinho. A verificação do gráfico mostrou que a saída se deu a 2 ½ G.

Chovia torrencialmente. Dei uma rápida olhada nos campos, glissei e pousei. Não tinha a mínima idéia de onde me encontrava e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi avisar o pessoal de Benalla.

Saí do planador e comecei a andar. A uns 200 metros cheguei a uma estrada. Meu olho esquerdo não abria e sentia o rosto inchado, cheio de contusões. Olhei em volta e deparei com uma casa de fazenda, a uns mil metros de distância, me dirigindo para lá. Foi só então que começou toda reação àquela agitação violenta pela qual havia passado. Como eu me sentia mal! Náuseas sem poder vomitar ! Por um bom tempo nem pude me mover.

Finalmente encontrei um automóvel que me levou até o hospital. Lá me deram alguma coisa para acalmar o estômago e dali a pouco voltei ao campo onde fui recebido com certa incredulidade, especialmente quando lhes contei que tinha chegado a 4.000 metros. Estava completamente molhado e me sugeriram tomar um chuveiro bem quente. Ao tirar a roupa verifiquei que apesar do macacão, meu braço e ombro esquerdo estavam cobertos de contusões e bolotas. Sentia-me mal novamente e sugeriram desta vez que voltasse ao hangar e me deitasse.

Uwe Radok, assistente do dr. Fritz Lowe, da seção de meteorologia da Universidade já havia voltado. Entrou no hangar com o metereógrafo na mão e sentou-se no chão junto à minha cama. Sentado assim, olhando o gráfico, repetia: "Não sei, não entendo, não posso acreditar. A corda deve ter parado". Esse estado de perplexidade foi induzido por uma pequena parte do gráfico: a descida de 3.600 a 1.200 metros estava indicado em linha reta e não em curva! Finalmente ele se convenceu que a corda não havia parado e que o gráfico mostrava exatamente a verdade. Tirou sua régua de cálculo e depois de muito mexer, informou que a razão de descida indicada era 100 m/s ou 360 km/h!

Tinha que ser lembrado que aquela não era a velocidade verdadeira da descendente, pois que deveria ser subtraída a velocidade indicada pelo velocímetro de 90 a 100 km/h. Estas últimas cifras poderiam ser postas em dúvida, pois que o velocímetro não estava registrando a velocidade exata durante o vôo, e o mecanismo poderia ter sido congelado.

Uma semana depois o metereógrafo voltou de Melboune, onde fora verificado, e as cifras mencionadas anteriormente foram confirmadas. A altura máxima confirmada foi de 4.500 metros. A razão de descida chegou a 100 m/s, uma pequena fração desta cifra representava a velocidade do planador. Sem dúvida, isso representava uma das maiores velocidades verticais do ar já registradas na atmosfera.