Um Reboque

Rebocador é meio assim como goleiro de time perdedor - a gente sempre põe nele a culpa por não ter achado “aquela” térmica baixa, forte e larga, e ter pousado prematuramente. Ainda bem que ele voa numa cabine ruidosíssima e não ouve as imprecações que se sucedem a cada novo reboque. Se ouvisse, não haveria mais rebocadores no mundo...

É curioso que vivi por muito tempo as duas situações, a de rebocado e rebocador. E acabei desempenhando o papel esperado em ambas, isto é: fui muito xingado como rebocador, vivia de orelhas quentes, mas também xinguei muito na condição oposta. Passei por várias situações de risco real nas duas condições. Hoje ocorreram-me algumas que gostaria de mencionar por várias razões - a mais importante é que estão diretamente ligadas à questão da segurança de vôo, coisa para a gente ter sempre em mente. Pela limitação de tempo e espaço, registro aqui apenas uma delas. Se os céus o permitirem, no futuro hei de falar sobre as outras.

Então: foi na década de 80, numa daquelas provas Vandaele patrocinadas pelo CVV como homenagem à lembrança do nosso inesquecível mestre, que aconteciam na época da semana da asa pelas razões óbvias mas também pelo fato de outubro ser um mês relativamente seco e com térmicas fortes no vale. Lá estava eu de PIK-20 em punho, tanques de lastro cheios até o talo (ôpa, talo, não: até o máximo permitido pelo manual - que é assim que a gente fala...), porque esperávamos térmicas excelentes na prova. Chegou minha vez, o PIK foi colocado na pista não sem algum esforço (estava com 450 kg, nem uma grama a mais ou a menos) e alinhado. Enquanto eu me ajeitava na cabine, veio alguém com uma corda de reboque da AFA, que tinha um imenso elo oblongo (media uns 15 cm de comprimento), e engatou-a no planador. O rebocador era o PA-18 GJY, comandado pelo meu amigo Saback - companheiro de muitas horas e fatos notáveis da época, inclusive deste. Saback sempre me pareceu um idealista valente e costumava defender suas idéias com unhas e dentes até o fim. Todo idealista também é, no entanto, um tanto sonhador. Isto é muito bom, essencial mesmo nos momentos certos. Vejamos.

O PIK todo lastreado demandava uma velocidade de reboque na faixa de 110 km/h. Além disto, a gente tinha o cuidado de não tirá-lo do chão muito cedo porque ele decolaria sem poder de controle de profundor suficiente para vencer a tendência a cabrar gerada pelo fato de que o engate ficava sob a cabine e bem abaixo do CG. Sair do chão muito lento era um sufoco.
Pois bem, quando tudo estava pronto, levantei o dedão esquerdo e alguém nivelou minhas asas. Começamos a rolar meio preguiçosamente, mas a gente já conhecia o macete de iniciar a rolagem com todo flape negativo e, com isto, ter um controle de rolamento excelente. Ia tudo bem até que, chegando aí pelos 80 km/h, percebi, estarrecido, que o Saback estava tirando o avião do chão! O idealista e sonhador devia mesmo é estar devaneando, imaginando que puxava um Olympia ou coisa assim. Enviei a ele um sonoro palavrão volovelístico e puxei imediatamente o desligador. Mas, ai de mim, castigo do céu: a corda não desligou. Aquele elo comprido, por alguma razão, havia emperrado o desligador!

Senti um calafrio quando vi o avião começar a subir, e eu ainda rolando pesadamente! Lembrei-me de um antigo acidente ocorrido porque um rebocador desnecessariamente afoito rebocou um planador com um ou dois dentes de flape no PA-18, decolou muito lento e causou um tremendo acidente onde, felizmente, poderosíssimos anjos da guarda impediram o piloto de sofrer danos irreparáveis. Mas não tinha jeito: era preciso seguir o avião. Cuidadosamente fui baixando os flaps do PIK, nervos à flor da pele, pilotando com extrema delicadeza - o Saback não acelerava, ou muito pouco, ainda mais porque eu estava puxando a cauda do avião para baixo. Não sei quanto flape usei, mas consegui decolar numa condição para lá de marginal, evitando a todo custo pegar os vórtices das pontas de asa que poderiam induzir-me a uma oscilação fatal...

Aos poucos fui atingindo a altura do avião, parecia um equilibrista em uma corda bamba. Aí lembrei-me de que o desligador havia sido acionado, e poderia deixar-me numa situação porquíssima se, de repente, me encontrasse desligado, lento, baixo e com toda aquela carga alar - inútil alijar o lastro, são necessários cerca de 5 minutos para esvaziar os tanques. Além disto, eu não queria fazer nenhum movimento que pudesse perturbar a pilotagem apuradíssima. A tensão era muito alta, pois eu tinha plena consciência dos riscos a que estava exposto. Limitei-me a pilotar e ir planejando o que fazer a cada instante caso o planador desligasse. Vi passar embaixo, à minha direita, a pista de acesso ao hangar, próxima à cabeceira 33. A partir daquele instante a coisa era ainda mais difícil porque estávamos baixos e lentos, não havia mais como pousar em frente ou à direita, e curvas fechadas seriam mortais. Mas creio que os anjos da guarda existem de fato, porque a corda não se soltou naquele ponto. Saback iniciou então uma curva para a direita e começamos a pegar alguma turbulência, para meu desespero. Quando ele tinha girado cerca de 90 graus, entrou em uma descendente, a corda se afrouxou um pouco, e caiu! Mas felizmente ele já tinha virado aqueles benditos 90 graus! Deixei o PIK baixar suavemente o nariz, completei a curva e consegui alinhá-lo com a pista em sentido contrário ao da decolagem, fazendo a última curva para a esquerda já muito próximo do solo. Mas aí já estava com todo ou quase todo o flape abaixado, o que me dava uma certa reserva de velocidade. Pousei com cuidado - estava todo lastreado e (não me lembro mais, mas provavelmente) acima do peso de aterragem. O toque, por sorte, foi muito suave.

É interessante ver que, nestas situações difíceis e em outras como pousos fora, os nossos sentidos se aguçam e a gente consegue voar excepcionalmente bem, percebe as coisas acontecendo a cada décimo de segundo e se antecipa ao perigo de forma notável. Isto é, desde que não entre em pânico...

Ufa! Pousei! Com segurança, felizmente, e devo até ter decolado depois para fazer a prova. A tensão momentânea, no entanto, deve ter sido tão alta que, daquele dia, só me lembro disto, e de mais nada. Para dizer a verdade, sequer me esforço para lembrar: Chega, né?

Autor:????

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