Paralelos

Voar é se sustentar no ar, na imensidão azul. Esse voo também pode ter uma compreensão metafórica no sentido de se mover pela vida à procura do melhor planeio, da melhor forma de se viver e de se integrar segundo a extensão ilimitada de nossa alma.

O voo a vela se revela um intrigante exercício de navegação de nós próprios.

Primeiro, o intenso trabalho em equipe que nos remete à inafastável convivência com nosso eu social, com o respeito das diferenças, dos ritmos, dos desejos e com a necessária compatibilizaçã o de tudo para um objetivo comum e, afinal de contas, prazeroso.

Depois a decolagem para todas as possibilidades que a existência nos apresenta, para o desconhecido horizonte e, claro, com o auxílio daqueles com quem podemos sempre contar.

Agora o desligamento e tudo se resume ao som do romper do vento e do palpitar do coração indicando que estamos vivos e prontos para todas as condições que a vida nos revela. Só o espaço, um planador e uma vontade imensa de que tudo dê certo e aí vem a melhor parte.

De repente uma térmica e claro, uma sensação inebriante de prazer e ao mesmo tempo o desespero de extrair ao máximo tal sensação como se o mundo pudesse, naquele minuto, acabar feliz. Em seguida uma descendente inexplicável, muito forte e a vontade de desistir, de acabar com o sofrimento com um simples pouso imediato e partir para outra tentativa, quem sabe outro dia...

Daí a luta entre simplesmente desistir dos objetivos, se prostrar diante das dificuldades da vida e, ao contrário, seguir em frente, com otimismo, com raciocínio com garra, sopesando as condições climáticas, físicas e mentais à caça por outra térmica mais à frente mesmo sabendo que ela pode não existir.

Planar é medir os limites das nossas próprias forças emocionais diante das circunstâncias do tempo e viver nada mais é do que atravessar a extensão de curto tempo à busca da felicidade e equilíbrio interior.

Planar é exercitar o enfrentamento das angústias com as descendentes, das frustrações diante da ausência de estradas de nuvens, da expectativa do incerto, das alterações impostas pela natureza, da  efemeridade ou não de uma térmica. É estar verdadeiramente diante do controle das emoções. É se ver sozinho para, com todo o tempo do mundo ou sem nenhum, tomar decisões e as melhores possíveis. É se ver diante da possibilidade real do findar, do deixar tudo para trás. E valeu a pena até aqui?

Planar é se dar de presente em alguns minutos ou horas a chance de se tornar melhor como pessoa assumindo o comando total da própria vida, terminando tudo com um pouso perfeito !

Gislaine Carneiro Campos Reis
09-05-2010

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