O Planador

Não há o que discutir. Existe piloto fissurado em balonismo, planador, ultraleve, girocóptero e etc. E cada um deles procura estar sempre na sua, acreditando que seu equipamento lhe traz o melhor bem-estar. Coisa de aviador...

Só que existe também o piloto de máquinas mais possantes e que jamais - por pavor - entra nessas máquinas simples, que nós sabemos serem bastante seguras. No entanto, esse tipo de piloto acostumou-se ao ronco forte de poderosos motores à sua frente ou, quando muito, atrás.

Eu e alguns companheiros que conheço estamos literalmente classificados nesta categoria, cujos membros esquecem que tudo começou com o balão, o ultraleve, giro e a perfeição do vôo com planador.

E por falar de planador, peço permissão para contar-lhes uma passagem pitoresca que aconteceu em meados de 1969 com um dos nossos companheiros fumaceiros, o nosso querido Land, que todos conhecem. E por falar em Esquadrilha da Fumaça, lembro-me de que o então capitão Braga, nosso líder, era um dos que só entravam em helicóptero com camisa de força. Em Santa Cruz de La Sierra, pudemos constatar tal fato. Mas isso é uma outra história.

Voltando ao Land. Era uma demonstração em Bauru. Dentro da programação e na hora de folga da Esquadrilha, um dos anfitriões da festa o convidou para realizar um vôo de planador sobre a cidade, o que lhe honraria muito.

Possuidor de verve eloqüente e raciocínio rápido, procurou com palavra de carinho e elogio declinar o convite. No entanto, o anfitrião não levou em consideração a sua negativa, pois sempre entendeu que piloto da Fumaça é piloto de alta performance e que nada teme. Ledo engano. Insistiu e insistiu explicando todo o mecanismo de um planador e a grandiosa beleza que esse vôo encerra.

Curiosos em volta, gozações de companheiro por toda parte e acuado por tantas gentilezas, não teve outra alternativa: aceitou.

Pela primeira vez iria verificar o vôo que mais se assemelha ao dos pássaros.

Decolagem realizada, nosso companheiro assumiu o comando, logo após a liberação do rebocador. Deliciava-se com a suavidade do vôo, com o silêncio, com o momento de paz.

Quando ouve então a voz do seu anfitrião interrompendo aquele inebriamento aéreo: "Land, a única preocupação que se tem quando se voa planador é procurar imediatamente térmicas para se ganhar alturas, obviamente".

Mas, todos sabemos que elas são invisíveis e alguns macetes para identificá-las são ensinados nas aulas teóricas. "Assim sendo - diz o seu anfitrião -, temos que procurar rápido, caso contrário a coisa poderá ficar feia. Uma das técnicas é procurar a ave que mais se utiliza de térmicas, o urubu".

Ato contínuo, aproximadamente a meia milha foi localizado pelo Land um bando de urubus. Com gritos de euforia, ele informou ao seu anfitrião: " Vamos indo pra lá, que me parece uma excelente térmica".

Ao chegar lá, nosso companheiro, iniciante naquele tipo de vôo, ouve um berro do anfitrião atrás, quebrando o silêncio do vôo.

- Volta!! Volta, Land!! É fria... Volta depressa para o campo.
- Por quê ? - Perguntou Land.
- É carniça! - respondeu.
 *Ten.-Cel-Av.RR. Wylton Silva, entre outro atribuitos é ex-integrante da Esquadrilha, sendo este texto publicado na revista Air&Sport by Skydive número 18, 1996.

Wylton Silva

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