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Cura do Medo da Morte... (Ibn Sina)

 

 

EM NOME DE DEUS, O CLEMENTE , O MISERICORDIOSO

A CURA DO MEDO  DA MORTE E O TRATAMENTO DO MAL DA AFLIÇÃO ADVENIENTE  DA MESMA,  DO  AI-SHAIKH  AL-RAÍS[1]

 

 

Tradução direta do árabe por Jamil Ibrahim Iskandar[2]

 

 

 

           Louvado seja Deus, Senhor dos mundos, que suas bendições sejam sobre o nosso Senhor Muhammad[3] e  seus familiares, os agradáveis, os castos.

Sendo o medo da morte um dos mais vigorosos que acompanha o homem e sendo este medo geral e, em sua generalidade, o mais forte e severo de todos os medos, é necessário que eu diga que o medo da morte não se apresenta a não ser para quem, na verdade, não sabe o que é a morte ou não tem ciência para onde irá sua alma  ou porque presume que se sofrer dissolução ou sua constituição se aniquilar, estaria, então, dissolvida sua essência e sua alma estaria aniquilada; uma aniquilação igual a do não-ser, presumindo que o mundo permanecerá, estando ele presente ou não, porque ignora a questão da permanência da alma e o modo do retorno da mesma ou  porque  presume que há forte sofrimento na morte, diferente do sofrimento pelas doenças que talvez o tenham acometido e foram a causa de sua aniquilação ou porque acredita que suas punições se apossarão dele após a morte ou porque está atônito, não sabe para  onde  irá  após a morte ou porque lamenta por aquilo que deixará em riqueza e posses. Tudo isto são presunções falsas, não têm veracidade.

Quanto à ignorância a respeito da morte e não saber o que ela é, esclarecerei que a morte não é senão a alma deixar de utilizar seus instrumentos, que são os órgãos cuja soma chama-se corpo, tal como um artesão abandona seus instrumentos.

A alma é uma substância não corpórea, não está sujeita e nem é receptiva à corrupção. Este esclarecimento necessita de conhecimentos que o antecedem. Isto está esclarecido e explicado em seu devido lugar[4].  Se esta substância abandonar o corpo, ela permanece e esta permanência lhe é própria, isenta das moléstias da natureza , feliz,   cuja felicidade é completa; não havendo meio para seu aniquilamento e para sua não existência. A substância não se aniquila enquanto é substância; sua essência não se aniquila, entretanto os acidentes, as particularidades, as relações e as correlações que existem entre a mesma e os corpos se anulam por intermédio de seus contrários. Quanto à substância, ela não tem contrário; cada coisa que se corrompe, se corrompe por seu contrário. Se você observar a substância corpórea, que é mais vil do que a substância nobre, a encontrará não sujeita à aniquilação e à destruição enquanto substância, mas  uma substância em relação à outra modifica-se. Deste modo, rejeita-se alguma coisa própria da substância e rejeita-se seus acidentes.

Quanto à própria substância, ela permanece e não há meio para sua não existência e seu aniquilamento. A substância espiritual[5]  não aceita transformação nem alteração em sua essência, aceita , porém,  a completude e as perfeições de sua forma.  Como então imaginar nela o não-ser e a destruição?

Quem tem medo da morte porque não tem ciência para onde irá sua alma ou porque presume que se seu corpo sofrer dissolução e sua constituição aniquilar-se, se aniquilariam tanto sua essência como sua alma e, além disso, ignorando a permanência da alma e a qualidade do retorno[6], então, na verdade, não tem medo da morte mas, ignora o que é necessário saber. A ignorância é o medo e a causa do medo  da morte,  e esta ignorância é o que levou os sábios a desejarem o conhecimento e a dedicação em função deste, bem como a abandonarem os prazeres do corpo e o repouso do mesmo, optando pela aplicação e pela vigília. Perceberam que o descanso de se libertar da ignorância é o verdadeiro descanso e o verdadeiro cansaço é o cansaço da ignorância porque esta é uma enfermidade que está na alma e eximir-se dela é libertação e descanso duradouro e prazer eterno.

Quando os sábios creram nisso, refletiram e procuraram a verdade a respeito ,  alcançando  a mesma pelo intelecto e, assim, obtendo tranqüilidade, todas as questões terrenas ficaram simples para eles. Vilipendiaram tudo que as pessoas em geral consideram importante, como dinheiro e riqueza, os prazeres sensíveis e os desejos que levam a estes prazeres. Se os desejos forem de pouca afirmação  e permanência, rapidamente perecem e desaparecem; trazem muitas preocupações quando existem e imensas aflições quando não existem, então os filósofos os evitaram na medida do necessário na vida e se consolaram com o mérito de viver nesta vida sem os vícios que mencionei e não mencionei também, porque estes não levam a um objetivo. Pois, se o ser humano alcançar um propósito nesta vida, é levado a outro propósito, sem limite nem término num limite. Esta é a morte da qual não se deve ter medo, e o empenho pela mesma[7]  é o empenho pelo efêmero, dedicar-se a ela é dedicar-se ao fútil; por isso, segundo o juízo dos filósofos, a morte são duas mortes. Uma voluntária e outra natural. Também, a vida são duas vidas: uma vida voluntária e outra natural - quiseram significar por morte voluntária, a morte da concupiscência e o abandono da exposição a ela e quiseram significar por vida voluntária aquilo em função do qual o homem se esforça na vida terrena no que diz respeito a alimentos, a bebidas e à concupiscência e quiseram significar por vida natural, a permanência da alma, duradoura na felicidade eterna pelo que adquire de benefício através do conhecimento e isenção da ignorância – por isso o filósofo[8]  Plotino, que Deus conceda o descanso à sua tumba, que perquiriu a sabedoria; recomendou e disse: “morra voluntariamente, viverás naturalmente”.        As  pessoas que têm medo da morte natural, têm medo do que é necessário suplicar, porque a pessoa é um “vivente racional, mortal”. Então, a morte é perfeição e completude e por ela atinge-se o mais alto grau de entendimento. Quem souber que toda coisa é composta por sua própria definição e sua definição é composta por seu gênero e suas diferenças (específicas) e que o gênero da pessoa é o vivente e  suas diferenças são as coisas  racionais e as mortais,  sabe que depende de seu gênero e de suas diferenças porque todo composto, sem dúvida, depende da coisa a partir da qual foi composto. Quem ignorar aquilo do qual  está  tendo medo a perfeição de sua essência  e qual é a pior situação,  quem estimar que sua própria aniquilação se dá através de sua vida e sua imperfeição se dá através de sua perfeição, e, ainda,  se o imperfeito tiver medo de se aperfeiçoar,  ignora a si mesmo no máximo  da ignorância. Então, é dever daquele que compreende, entristecer-se com a imperfeição e ser afável com a perfeição, procurar tudo que o aperfeiçoa,  o completa e o dignifica e eleva sua situação. Deve desvincular-se do aspecto que acredita levá-lo ao medo e  não se desvincular do aspecto  que fortalece sua certeza e o acrescenta quanto à sua constituição  e ao seu comprometimento. Assim, terá certeza  que se a substância  divina, nobre, ficar livre da substância corpórea grosseira, porém, uma libertação  pura e sincera e não uma libertação mesclada e obscura, então atingirá o mundo mais elevado  e retornará à Sua soberania e se aproximará de seu Criador;  passará para a proteção do Senhor dos mundos e estará na companhia dos espíritos agradáveis, parecidos e semelhantes a ele e ficará salvo de seus opostos e seus diferentes.

A partir disto,  sabemos  que aquele  cuja  alma separar-se de seu corpo porém, desejosa do corpo,  compadecida, temendo a separação  deste corpo, esta alma está no máximo do infortúnio e da dor em sua essência, e sua substância se distancia do aspecto de sua permanência, desejando a sua própria permanência para   estabelecer-se nela.

Quanto a quem presume que a morte é uma dor terrível, diferente da dor das enfermidades que talvez tenham  se lhe apresentado, sua presunção é falsa porque a dor se dá por apreensão e a apreensão pertence ao vivente e  o vivente é  quem recebe a influência da alma. O corpo que não tem influência da alma, não sente dor e nem tem sentidos[9]. Então, na morte, que é a separação da alma do corpo, não há dor porque o corpo só  sente dor e tem sensação por intermédio da alma e a concretização da influência da mesma no corpo; se se tornar apenas  corpo, não haverá  influência sobre a alma, não haverá sentidos nem dor.

Ficou esclarecido, então, que a morte é uma situação para o corpo que se dá pela separação da alma deste corpo, a morte não será sentida nem traz dor, porque havia sensação e dor por intermédio da alma. Quanto a quem tem medo da morte por causa da sanção, então, na realidade, não tem medo da morte, mas tem medo da sanção; a  sanção  se dá sobre alguma coisa que permanece após a morte; então, sem dúvida ,  este reconhece suas culpas e suas  ações más,  merecedoras de punição. Com isto, reconhece um legislador justo que sanciona  pelas coisas más e não pelas boas ações. Portanto, quem tem medo da morte, tem medo de seus pecados e não da morte. Quem tem medo de seus pecados lhe é   um dever evitar esses pecados. As más ações  chamam-se  pecados e procedem de disposições más;    ‘mencionamos e lembramos seus contrários, ou seja, as virtudes’. Quem tem medo da morte sob esta forma e este aspecto, então ignora aquilo do que deve ter medo e tem medo daquilo que não exerce influência nem medo. Quem adquirir conhecimento, se afirma e quem se afirmar conhecerá a via da felicidade e, então, seguirá esta via. Quem  segue o caminho da retidão visando a um objetivo, será , sem dúvida,  conduzido a este objetivo. A afirmação que acontece por intermédio do conhecimento, é a certeza e a situação daquele que reflete sobre sua religião e está apegado à sabedoria da mesma.

Quem  diz não ter medo da morte mas se entristece por deixar família, filho e riqueza e lamenta o que perderá de  deleites e concupiscências  do mundo, é necessário mostrar-lhe que o entristecer-se por algo que é imprescindível que aconteça, não há esforço útil por este algo. O ser humano está entre os vários elementos  que existem por geração, engendrados corruptíveis. Todo  ser engendrado, sem dúvida,  é corruptível. Quem almeja não ser corruptível, então almeja não existir e quem almeja não existir almeja a corrupção de si próprio; é como  se almejasse ser corruptível e almejasse não ser corruptível , almeja existir e não existir. Isto é impossível, não ocorre a quem intelige. Também, se fosse possível ao ser humano permanecer[10], os nossos antecedentes teriam permanecido. Se todas as pessoas permanecessem com suas descendências e não morressem, a Terra não os comportaria. Você pode refletir sobre isto que estamos dizendo.

Foi estimado que um só homem que existisse desde há 400 anos até hoje e pertencendo a pessoas famosas, para que seja possível fazer o censo de seus filhos existentes, como por exemplo o Príncipe  dos Crentes  ‘Ali Ben  Abi  Tálib[11],  que a paz recaia sobre ele,  que tem filhos e seus filhos também têm filhos e permanecessem  também gerando filhos e ninguém deles morresse. Calcule a quantidade  dos mesmos em nosso tempo e encontrarás mais do que dez mil homens; calcule também todos os que  viveram neste século[12] na superfície da Terra, tanto no Oriente como no Ocidente da mesma. Se duplicar este número, não haverá uma multiplicidade[13]  que os abranja nem uma quantidade que os conte. Calcule a superfície da Terra. É  uma superfície conhecida e limitada. A Terra não os comportaria nem em pé nem amontoados, como então os comportaria sentados à vontade? Não restará lugar para construção nem lugar para o plantio nem trânsito para alguém nem  haverá um movimento mais prioritário que outro. Tudo isto  considerando  um tempo pequeno. Como seria então se se aumentar o tempo considerado e as pessoas duplicarem nesta proporção?

Esta é a situação de quem sente concupiscência   pela vida eterna e tem aversão pela morte e estima que isto seja  possível[14], em função da ignorância e de nada  entender a respeito.  Então,  a sabedoria Divina eloqüente e a justiça ampla do governo imparcial, é Retidão que não tem  ninguém  justo superior a  Ele. Ele é o máximo da generosidade e não tem  propósito de vantagem.  Aquele que tem medo da morte, tem medo da justiça de Deus e de Sua sabedoria, tem medo de Sua generosidade e de Sua doação. Portanto, a morte não é perniciosa, pernicioso é o medo da  mesma. Quem tem medo da morte ignora-a e ignora a essência da mesma.

A verdade sobre a morte é a separação da  alma do corpo. Nesta separação não há corrupção da alma, é corrupção da composição do corpo. A substância da alma  que é a essência do ser humano e sua parte mais importante e, também, sua redenção, permanece e não é corpórea. Acompanha-a o que acompanha os corpos, porém, nada de acidentes dos corpos a acompanha, tais como, a competitividade quanto a lugar porque não necessita de  lugar e não se empenha quanto à permanência temporal porque prescinde do tempo.  Mas o benefício desta substância através dos sentidos e dos corpos é completude para a mesma. Se se completar por intermédio destes[15] e depois  desvincular-se dos mesmos, dirige-se para o seu mundo[16] nobre, próximo de seu Criador e de sua procedência, Querido e  Excelso seja.

O homem que pratica uma caridade por seu irmão falecido ou supre uma  dívida do mesmo, fica feliz pela felicidade deste falecido –  porque se a alma for una, o próprio praticante da caridade,  e esta outra alma e as outras almas são uma só coisa mas, se esta alma for múltipla[17], o caridoso somente praticará esta amabilidade por esta alma em função de sua  semelhança a ela - e essas almas  semelhantes são como se fossem uma só coisa.

 

 

Apesar de ter sido defensor do espírito racionalista e científico, Avicena mostra o apreço que tinha por sua religião.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Al-Shaikh al-Raís : o grande mestre. Assim era chamado Avicena  em sua época. O texto é uma tradução direta do árabe a partir de uma antologia de textos deste filósofo intitulada Rasá’il  [Epístolas], editadas pela editora Intisharát Baidar, em Qom, Irã, em 1979, p. 339-346.

[2] Professor de Filosofia Medieval árabe na Universidade Federal de São Paulo, Campus Guarulhos.

[3] Trata-se do Profeta do Islamismo, Muhammad..

[4] Veja a respeito deste assunto o volume que é parte da grande obra de Avicena denominada Al-Shifá’ ( A Cura), com o título de Ilm  al-Nafs Psychologie D’ibn Sina), especialmente o capítulo I, editado pela Enterprise Universitaire d’Etude et de Publication Beyrouth e Editions du Patrimoine Árabe et Islamique, Paris, 1988.

[5] Espiritual . Esta palavra pode ser entendida aqui no sentido de Ruh, sinônimo de  Aql, isto é, intelecto.

[6] Deve-se entender que é o retorno a Deus.

[7] O empenho pela mesma : no sentido de querer evitar a morte.

[8] Filósofo: tradução da palavra Hakim que tanto pode significar sábio como filósofo.

[9] É uma referência aos cinco sentidos.

[10] Permanecer : quer dizer não morrer.

[11] Trata-se de um eminente kalifa do Islã e fiel seguidor do Profeta Muhammad e seu genro ; nascido  no ano 600.

[12] É uma referência ao séc. VII.

[13] Multiplicidade :  esta palavra é utilizada aqui como sinônimo de grande número.

[14] Que isto seja possível : que seja possível viver eternamente.

[15] Destes : dos sentidos e dos corpos.

[16] Seu mundo: o mundo da alma.

[17] Múltipla : esta palavra está sendo traduzida a partir da palavra árabe  “mutashátia”  que pode significar dispersa ou diversa. Optamos por múltipla em oposição à palavra una utilizada anteriormente neste parágrafo.

 
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