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Passiflora S.

Indumentária, criada pelo próprio artista, em que são utilizadas gavinhas de maracujazeiros. Essas estruturas, encontradas em determinadas espécies vegetais, são um meio à procura de apoio, evidenciando a insustentabilidade do caule por si só. Vale salientar que a cultura escolhida é originária de países tropicais, incluindo o Brasil, lembrando a característica de território colonizado e como esse fator parece intrínseco às associações que um pé de maracujá pode gerar (com o exotismo, por exemplo). Nessa série, foi trabalhada também a dualidade que significam as vestes. Sentir-se protegido ou proteger estruturas tão frágeis. Afinal, quando nos vestimos, o corpo também pode ser entendido como um meio de sustentação dessas peças. Com algumas frentes de trabalho, existe a possibilidade do projeto ser considerado uma ‘botanicamoorfização’, ou correlações com discussões que culminem nas diferenças entre simbiose e parasitismo, além do paralelo entre as formas de vidas vegetal e humana. Fatores de fascínio, estranhamento e repulsa tem sido determinantes nas formas de representação e o projeto permite a observação a um ser humano que não consegue esconder suas fragilidades. Antes do ensaio fotográfico, também realizado pelo artista, foram feitas simulações por meio de desenhos para direcionar o ensaio.

Algumas observações:
1_ A veste destinada ao tronco apresenta as gavinhas alinhadas à coluna vertebral. A fixação é concluída pelas cintas costuradas e posicionadas de forma a remeter a camisas de força, que impossibilitam liberdade na movimentação;
2_ A espécie da saia possui, paradoxalmente, como referência o tradicional ‘hakamá’ (usado por guerreiros japoneses), onde as pregas possuem significados como características de civilidade, humanidade e dignidade. As aberturas laterais revelam as gavinhas localizadas à altura dos quadris.




As doze imagens fotográficas da série “Vestes de Fragilidade”, do artista Élcio Miazaki, nos convidam a uma experiência plástica imersiva de apurada fruição estética.
Mais uma vez, Miazaki surpreende o público ao propor uma transmutação. De fragilidades - a figura humana e as gavinhas do maracujazeiro, a fatura e design das vestes e pregas, alças e telas, a gentileza do enquadramento, a interioridade da luz -, se faz civilidade, dignidade.
A série fotográfica dialoga com os fundamentos da arte na contemporaneidade enquanto expressão libertária de sensibilidade e valoração de diferenças, onde a beleza pode discursar não como palavra de ordem ou ismo da moda, mas como produto do ser social.
Numa sociedade ambígua e contraditória, corpo e figura humana podem assim revelar um ser natural, isento de esforço - ente selvagem, puro, mas, por outro lado, também cintas e fivelas podem cingir e constranger pele e carne - ainda que minimamente, remetendo então à violência de uma camisa de força, objeto do “Vigiar e Punir” de Foucault.
Como salienta o próprio artista, o labor de meticulosidade da execução e acabamento das vestes remetem ao Hakamá - traje tradicional do samurai, ofício de civilidade hierárquica, de obediência. Tal ordenamento social coexiste e se contrapõe a uma perspectiva mágica e simbólica das obras, onde as configurações de fragilidade de Miazaki podem definir e humanizar o ser que as habitam tais como as penugens aos pássaros.
Nessa experiência estética, o público é terceiro elemento, aquele capaz de catalisar a dualidade Autor-Obra, de acordo com o Barthes da “Morte do Autor”. Em uma combinação fenomenológica de eficiência e fluidez, a expressão do autor através de sua meticulosa fatura (o ser-em si) busca, em nós, seu interlocutor participante (o ser-para si).
Miazaki coloca – a cada um de nós, frente a imensos abismos que nos demandam palavra, posição, reflexão. Tal desafio é função primordial da obra de arte, valor admirável e positivo por si só.

Carlos Zibel
curador



(No caso da exposição no ECEU - Espaço Cultural de Extensão Universitária da Universidade de São Paulo - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, foram expostos todas as imagens e objetos da série. Houve a criação de uma instalação site-specific com galhos encontrados no próprio jardim do ECEU. A série pertence ao acervo da instituição.)

2019
Fotografia sem galeria - Mapa das artes - São Paulo - SP

2018
Galeria da FAV/ UFG (Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás)/ Goiânia - GO
MACC (Museu de Arte Contemporânea de Campinas) - SP

2017
III Bienal do Sertão - Vitória da Conquista/ BA
Casa das Onze Janelas - Belém do Pará - PA
ECEU - Espaço Cultural e de Extensão Universitária da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - SP
Casa Nubam - coletiva "Carne Levada" - São Paulo - SP

2016
Programa de exposições Galerias de Santos - SP
Programa de exposições MAC Jataí - GO
Arte no Mercearia S. Roque - São Paulo - SP

2015
18ª Bienal de Cerveira (Portugal)



instalação e ensaio fotográfico
dimensões variadas
materiais: telas, cintas, ferragens, gavinhas secas
1 quadro 164.5 x 136cm
3 quadros 33 x 27.5cm
2 quadros 56.5 x 73cm
2 quadros 33 x 43cm
2 quadros 79 x 102.5cm

objeto #1
título: gargantilha passiflora
dimensões: 40 (diâmetro) x 27cm (altura) materiais: gavinhas secas de maracujazeiro, tela metálica

objeto #2
título: armadura passiflora
dimensões: 70 (altura), 45 (frente), 25cm (profundidade)
materiais: gavinhas secas de maracujazeiro, tela metálica, meio-aros, cintas